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                <journal-title>Revista Oculum Ensaios</journal-title>
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                <article-title>O HOTEL NA MODERNIDADE: METAMORFOSES DE UMA TIPOLOGIA ARQUITETÔNICA HÍBRIDA <xref ref-type="fn" rid="fn01">1</xref></article-title>
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                    <trans-title>THE HOTEL IN MODERNITY: METAMORPHOSES OF A HYBRID ARCHITECTURAL TYPOLOGY</trans-title>
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                <institution content-type="original">Universidade Federal do Ceará | Centro de Tecnologia | Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo e Design | Av. da Universidade, 2890, Benfica, 60020-181, Fortaleza, CE, Brasil | E-mail: ricardopaiva@ufc.br</institution>
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                    <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (<italic>Open Access</italic>) sob a licença <italic>Creative Commons Attribution</italic>, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.</license-p>
                </license>
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            <abstract>
                <title>RESUMO</title>
                <p>Este artigo constitui-se em um estudo sobre o hotel em uma perspectiva teórica, histórica e crítica, buscando ampliar o conhecimento sobre as mutações das tipologias arquitetônicas na modernidade no contexto de um desígnio mais amplo e promover a discussão conceitual e transdisciplinar entre a arquitetura e o turismo. O objetivo do trabalho é compreender as articulações entre a gênese e metamorfoses do hotel na modernidade e as práticas sociais relacionadas à hospitalidade, à viagem e, mais recentemente, às atividades de lazer e turismo. O trabalho busca ainda discutir continuidades e descontinuidades no processo de transformação dessa categoria de edifícios, levantando como argumento a ideia de que os hotéis são, por excelência, tipologias arquitetônicas híbridas. Por fim, duas categorias de hotéis importantes surgidas na modernidade são analisadas: o “Grande Hotel” e o “Hotel de Turismo” que, por terem caráter híbrido, possuem significativo potencial de conservação na contemporaneidade, por intermédio de intervenções e estratégias de reuso para outros fins programáticos.</p>
            </abstract>
            <trans-abstract xml:lang="en">
                <title>ABSTRACT</title>
                <p>This paper is an study about the hotel from a theoretical, historical and critical perspective, seeking to expand the understanding about the changes in architectural typologies in modern times, in the context of a broader objective of promoting the conceptual and transdisciplinary discussion between architecture and tourism. Thus, the objective of this work is to understand the links between the genesis and metamorphoses of the hotel in modern times and social practices related to hospitality, travel and, more recently, leisure and tourism activities. It also seeks to discuss continuities and discontinuities in the transformation process of this category of buildings, raising as an argument the idea that hotels are, by excellence, hybrid architectural typologies. Finally, it analyzes two categories of important hotels that emerged in modernity: the “Grand Hotel” and the “Tourism Hotel”, which, due to their hybrid character, have significant conservation potential in contemporary times, through interventions and strategies of reuse for other programmatic uses.</p>
            </trans-abstract>
            <kwd-group xml:lang="pt">
                <title>PALAVRAS-CHAVE</title>
                <kwd>Arquitetura</kwd>
                <kwd>Edifício híbrido</kwd>
                <kwd>Meios de hospedagem</kwd>
                <kwd>Tipo</kwd>
                <kwd>Turismo</kwd>
            </kwd-group>
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                <title>KEYWORDS</title>
                <kwd>Architecture</kwd>
                <kwd>Hybrid building</kwd>
                <kwd>Hosting means</kwd>
                <kwd>Type</kwd>
                <kwd>Tourism</kwd>
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                <funding-statement>Apoio/Support: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Edital Capes nº45/2017 – Professor Visitante Junior no Exterior – Processo nº88881.170643/2018-01).</funding-statement>
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        <sec sec-type="intro">
            <title>Introdução</title>
            <p>O ESTUDO SOBRE as tipologias arquitetônicas<xref ref-type="fn" rid="fn02">2</xref> tem como aporte imprescindível o conceito de tipo de <xref ref-type="bibr" rid="B03">Argan (2006)</xref> que, baseado em <italic>Quatremère de Quincy</italic>, o define como uma abstração, referência que serve como influência para o projeto, diferentemente do modelo, que se presta à imitação. Assim, o tipo é um conceito genérico e indefinido, uma essência extraída de um conjunto de edifícios que apresentam certas analogias formais e funcionais comuns associadas a demandas sociais, econômicas, políticas e cultural-ideológicas no tempo e no espaço.</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>Em outras palavras, quando um ‘tipo’ é definido pela prática ou pela teoria da arquitetura, ele já existia na realidade como resposta a um complexo de demandas ideológicas, religiosas ou práticas ligadas a uma determinada situação histórica em qualquer cultura</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B03">ARGAN, 2006</xref>, p. 269).</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>A discussão sobre o tipo não pode reduzir-se às questões estilísticas, uma vez que perpassam a compreensão das condicionantes sociais (econômicas, políticas e cultural-ideológicas) que, no caso da tipologia hoteleira, envolvem o trabalho, o lazer e o turismo, o papel dos agentes, os usos e apropriações, bem como as transformações tecnológicas.</p>
            <p>De modo geral, um hotel é o encontro de dois mundos, que abrange práticas sociais na escala global e local: no âmbito econômico, como uma expressão do meio de produção, distribuição e consumo de capital, dos fluxos de pessoas e mercadorias, acionando uma ampla cadeia produtiva de diversos setores (primário, secundário e terciário); no âmbito político, revela o envolvimento de diversos agentes (inclusive o Estado) e testemunha assimetrias de poder (gênero, classe e raça), como a relação de servidão entre empregados e empregadores e com os próprios hóspedes; no âmbito simbólico, expressa processos de transculturação e colonização por meio de intercâmbios de valores do ampliado campo da arte e da cultura.</p>
            <p>Desde a modernidade e a intensificação do turismo de massa no século XX, o hotel se insere em um dos três serviços básicos que viabilizam os fluxos da atividade: os meios de hospedagem, os meios de transporte/mobilidade e os atrativos para a prática de recreação/lazer.</p>
            <p>Os meios de hospedagem consistem em uma forma comercial de hospitalidade; portanto, um negócio que acolhe o ócio. Entretanto, é comum que se confunda o termo “hotel” com meios de hospedagem, que são usados indistintamente como sendo a mesma coisa. Assim, é importante esclarecer que o hotel é uma das principais categorias dos meios de hospedagem que: “[...] julgamos importante referirmo-nos, tecnicamente, a meios de hospedagem para designar os estabelecimentos encarregados de comercializar o direito de hospedagem, por um tempo determinado e um valor predefinido e estabelecido no contrato de hospedagem” (<xref ref-type="bibr" rid="B23">SPOLON, 2011</xref>, p. 8).</p>
            <p>Diante do exposto, o objetivo do trabalho é compreender as articulações entre as práticas sociais relacionadas à hospitalidade, à viagem e, mais recentemente, às atividades de lazer e turismo e à gênese e metamorfoses do hotel na modernidade.</p>
            <p>Assim, o trabalho levanta como argumento a ideia de que os hotéis são, por excelência, tipologias arquitetônicas híbridas. Esse caráter heterogêneo se revela desde a sua origem, uma vez que essa categoria de edifícios descende de múltiplas práticas socioespaciais manifestadas em distintas tipologias formais e funcionais ao longo do tempo.</p>
            <p>Na segunda metade do século XIX, mais que um edifício multifuncional, o hotel adquire a condição de um edifício híbrido por intermédio da justaposição de diversos usos, funções e configurações espaciais e formais próprios da modernidade. Essa complexidade do edifício híbrido em geral e especificamente do hotel, se manifesta nas grandes dimensões, nas interfaces entre o ambiente público e o privado e no agenciamento da diversidade dos acessos, fluxos e circulações horizontais e verticais. Para <xref ref-type="bibr" rid="B14">Lassance <italic>et al</italic>. (2012, p. 36)</xref>, o edifício híbrido se diferencia da simples combinação de funções, como ocorreu, por exemplo, na “casa com loja” medieval, pois se caracteriza “[...] pela maior magnitude de suas dimensões e, principalmente, pelos recursos tecnológicos que emprega para conciliar diferentes programas”.</p>
            <p>Os pressupostos teóricos do trabalho se ancoram no conceito de edifício híbrido supracitado que, por seu turno, dialogam com a ideia de tipo como algo genérico e flexível, ainda que arraigado ao passado. Como síntese, o artigo apresenta uma discussão acerca das tipologias formais e funcionais verificadas no “Grande Hotel” e no “Hotel de Turismo”, que são estudos de casos genéricos que sustentam que o hotel na modernidade constitui uma tipologia arquitetônica híbrida. Para tanto, o artigo enfatiza os aspectos referentes às alterações e contaminações relativas às tipologias formais, que compreendem a estrutura material; bem como às tipologias funcionais, que abrangem aspectos relacionados ao programa, aos usos e às interações com o lugar.</p>
            <p>Finalmente, discute-se nas Considerações Finais que os hotéis remanescentes da modernidade, pela sua condição híbrida, genérica e flexível, possuem significativo potencial de conservação e permanência nas dinâmicas urbanas contemporâneas por intermédio de intervenções de reuso para diversos fins programáticos.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>GENEALOGIA SEMÂNTICA E TIPOLÓGICA</title>
            <p>A origem etimológica da palavra hotel remonta ao termo em francês antigo <italic>hostel</italic> de fins do século XVIII, evoluindo para <italic>hôtel</italic><xref ref-type="fn" rid="fn03">3</xref> que, por sua vez, é proveniente do vocábulo latino <italic>hospitale</italic>, no sentido de hospedaria, que também dá origem à palavra hospital (<xref ref-type="bibr" rid="B20">PEVSNER, 1976</xref>). Assim, o termo hotel e seus cognatos derivam do latim <italic>hospes</italic>, que significa estranho, convidado.</p>
            <p>O aspecto comum da origem etimológica e semântica das palavras hotel e hospital coincide com a gênese dos tipos arquitetônicos que os abrigam, caracterizados pela existência do leito e do serviço de alimentação, muito embora se prestem a usos sociais completamente distintos na atualidade. Na Idade Média, aspectos funcionais e formais desses programas arquitetônicos coexistem e se confundem face ao papel exercido pela Igreja, confirma <xref ref-type="bibr" rid="B20">Pevsner (1976, p. 139)</xref>:</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>Hospital, hospício, hostel, hotel são todos derivados de latim <italic>hospes</italic>, o convidado ou o anfitrião. Um grande número de palavras representa a multiplicidade de funções do hospital medieval: hospital, asilo, hospício de indigentes, orfanato, casa de repouso, casa de hóspedes para viajantes e peregrinos, hospício.</p>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>Antes mesmo que os hotéis se materializassem como uma tipologia arquitetônica, os fragmentos dos seus conteúdos sociais estavam presentes em formas arcaicas de hospedar. Para <xref ref-type="bibr" rid="B03">Argan (2006)</xref>, mesmo quando os conteúdos simbólicos antecedem o tipo e o condicionam, eles apenas são transmissíveis se associados às formas arquitetônicas. Uma vez materializadas, as formas são apropriadas conscientemente e, então, passam a ser portadoras dos conteúdos sociais. Ainda assim, essa forma é genérica e possui variadas possibilidades de sofrer mutações. Portanto, torna-se patente identificar os conteúdos sociais e as formas que antecedem o hotel na modernidade.</p>
            <p>A origem da hospitalidade se insere em um contexto em que as motivações das viagens e os meios de transporte eram ainda bastante limitados.</p>
            <p>Na Grécia, devido aos conflitos e à autonomia das cidades-estados, as viagens não eram corriqueiras. A exceção se refere aos deslocamentos suscitados pela realização dos Jogos Olímpicos, quando se estabelecia consensualmente uma trégua. Aos atletas estava garantida a proteção, a privacidade e o repouso por meio da construção do <italic>ásylon</italic>, correspondente a um asilo (<xref ref-type="bibr" rid="B01">ANDRADE <italic>et al</italic>., 2003</xref>). É importante ressaltar que a hospitalidade teve e ainda tem, como lugar privilegiado, a habitação, que continua a abrigar visitantes e viajantes.</p>
            <p>No Império Romano, a construção de infraestruturas para viabilizar a reprodução do poder revelava fluxos intensos de viagem, seja para permitir a movimentação das tropas militares, com a presença de pontos de pouso e alimentação, seja para facilitar a comunicação, por meio de serviços de correios. Assevera <xref ref-type="bibr" rid="B04">Benévolo (1997, p. 188, grifos do autor)</xref>:</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>Na rede de estradas romanas funciona, a partir de Augusto, um serviço regular de correio (<italic>cursus publicus</italic>), com estações secundárias (<italic>mutationes</italic>, para a troca de cavalos) e estações principais (<italic>mansiones</italic>, para a pernoite, distantes um dia de viagem, com seis ou sete <italic>mutationes</italic> intermediárias).</p>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>Essas estruturas de <italic>mansiones</italic> e <italic>staciones</italic>, de certa maneira, formavam sistemas articulados de meios de hospedagem e transportes que, associados, compunham nós de encontro, como se fossem uma espécie de estalagem antiga.</p>
            <p>Inseridas na lógica do “<italic>panen et circenses</italic>”, as principais cidades romanas abrigavam várias atividades de entretenimento, que atraíam muita gente e demandavam a construção de edifícios para fins de eventos e lazer, como as termas, os balneários, os circos, os teatros, as estalagens, os estábulos e as tavernas. Assim, origens remotas dos hotéis encontram-se presentes nessas tipologias supracitadas, relacionadas às atividades de ócio e negócio e que o hotel, na modernidade, cumpriu a função de agrupar. Um dos fragmentos que aludem às origens da tipologia hoteleira são principalmente essas casas de banho da antiguidade clássica, que valorizavam atividades coletivas de recreação e desporto e que constituem uma das raízes mais longínquas do “Hotel de Turismo” da primeira metade do século XX e do atual <italic>resort</italic>.</p>
            <p>A queda do Império Romano resultou na diminuição dos fluxos econômicos e das viagens em função da dispersão e fragmentação espacial características do sistema feudal e, simultaneamente, do isolamento face ao perigo das estradas e aos conflitos provocados envolvendo os povos considerados bárbaros. Entretanto, o advento do cristianismo e a expansão da “Igreja Militante” (<xref ref-type="bibr" rid="B12">GOMBRICH, 1993</xref>) promoveram, por meio de eventos religiosos e do culto a lugares sagrados e relíquias cristãs, deslocamentos e viagens em torno das peregrinações. Essas, por sua vez, demandavam instalações de apoio para pouso, repouso e alimentação.</p>
            <p>É importante destacar que os fluxos de peregrinos não se restringiam aos adeptos ao cristianismo. Na cultura islâmica, o pressuposto de que o praticante do Islã tem a obrigação de visitar Meca suscitou no Oriente um influxo importante de viagens e a necessidade de edificações com funções de meios de hospedagem (<xref ref-type="bibr" rid="B08">DENBY, 1998</xref>). É remota a existência de meios de hospedagem para abrigar peregrinos.</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>Jerusalém, como foco do Cristianismo, Judaísmo e Islamismo, ocupa lugar de destaque entre os centros de peregrinação. Cada uma dessas religiões diferentes forneceu uma extensão considerável, às suas próprias comunidades, mas referências bíblicas indicam a existência de hospedarias seculares</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B08">DENBY, 1998</xref>, p. 15).</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>Além dos peregrinos, os locais de hospedagem serviam comumente para acolher os membros do clero, que deambulavam como ativistas dos dogmas da Igreja e participavam dos eventos e concílios religiosos, além dos comerciantes, que se beneficiavam de alguma maneira com a mercantilização da fé.</p>
            <p>Essas hospedarias funcionavam, na maioria das vezes, em mosteiros e estruturas anexas às igrejas. Um aspecto interessante relativo à tipologia desses edifícios religiosos se refere aos claustros e seus pátios internos. O pátio, embora tenha origem distante em várias culturas arquitetônicas, sobretudo na residência ocidental e oriental, adquiriu, após a disseminação do cristianismo, importância crucial no desenvolvimento de várias tipologias relacionadas às funções sociais da Igreja face ao alcance e a unidade cultural que a instituição promoveu no mundo ocidental.</p>
            <p>Dessa matriz do claustro cristão, que para <xref ref-type="bibr" rid="B19">Mumford (1998)</xref> é um recinto de liberdade no interior, derivam diversos tipos de edifícios, como escolas, quartéis, prisões, hospitais, asilos, orfanatos e hospedarias, consoante às funções sociais desempenhadas pela Igreja. Assim, o pátio interno constitui um arquétipo dos edifícios para fins de educação, cura, proteção e também de hospedagem (<italic><xref ref-type="fig" rid="f01">Figura 1</xref></italic>).</p>
            <fig id="f01">
                <label>FIGURA 1</label>
                <caption>
                    <title>Foto do Pátio de <italic>San Juan</italic> do <italic>Hospital de los Reyes</italic> em Santiago de Compostela. Usos híbridos de hospital e hospedaria.</title>
                </caption>
                <graphic xlink:href="2318-0919-oa-19-e224889-gf01.tif"/>
                <attrib>Fonte: Foto de José Luis Filpo Cabana em Domínio Público. Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Patio_de_San_Juan._Hospital_Real_de_Santiago.jpg">https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Patio_de_San_Juan._Hospital_Real_de_Santiago.jpg</ext-link></attrib>
            </fig>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>Tanto o hospital quanto a enfermaria de isolamento foram contribuições diretas do mosteiro; e, ao lado deles, surgiu uma espécie mais geral de hospitalidade para com os sadios que necessitavam de alimento e repouso por uma noite. Através de todos os séculos, quando faltavam estalagens e hotéis, quando os alojamentos privados eram escassos e apertados, o asilo monástico proporcionava acomodação decente e gratuita</p>
                    <attrib>(MUMFORD, 1998, p. 292).</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>Com o passar do tempo, a hospitalidade e a hospedagem se transformaram em serviços, apresentando significativa complementaridade com as atividades de comércio, que se intensificaram com a Revolução Comercial. A transição do sistema feudal para o mercantilismo impulsionou a conquista de novos territórios, ampliando os mercados, transformando as percepções de tempo e espaço de deslocamento e os meios para se realizar as viagens e, consequentemente, modificando a noção de mundo.</p>
            <p>Do século XVI ao século XVIII, as mutações desencadeadas por um relativo avanço tecnológico a serviço do imperialismo resultaram em formas de hospedagem de caráter mais comercial, tanto nas metrópoles como nas colônias.</p>
            <p>Nesse período, os meios de hospedagem eram representados pelas estalagens, hospedarias ou pousadas (<italic><xref ref-type="fig" rid="f02">Figura 2</xref></italic>). A estalagem (<italic>inn</italic>) é uma forma ancestral do hotel moderno, “[...] um prédio (e funcionários) que fornecia hospitalidade na forma de alojamento durante a noite e refeições para os viajantes, bem como um local de encontro semi-público para as comunidades” (<xref ref-type="bibr" rid="B13">JAMES <italic>et al</italic>., 2017</xref>, p. 4). Somam-se a isso os estábulos para abrigar os cavalos e as carruagens.</p>
            <fig id="f02">
                <label>Figura 2</label>
                <caption>
                    <title>Hospedaria <italic>Angel and Royal</italic> em Grantham, Lincolnshire, Inglaterra, em operação como meio de hospedagem desde 1203.</title>
                </caption>
                <graphic xlink:href="2318-0919-oa-19-e224889-gf02.tif"/>
                <attrib>Fonte: Fotógrafo Desconhecido. Domínio Público. Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Grantham,_Lincolnshire,_England._Angel_and_Royal_Hotel_and_Sharpleys,_pre-WW1_(cropped).JPG">https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Grantham,_Lincolnshire,_England._Angel_and_Royal_Hotel_and_Sharpleys,_pre-WW1_(cropped).JPG</ext-link></attrib>
            </fig>
            <p>As categorias desses meios de hospedagem variavam em função de certa distinção social: de um lado, as voltadas para a elite; de outro, para comerciantes menos abastados. Na França havia a distinção entre “<italic>auberge a pied</italic>” e o “<italic>auberge au cheval</italic>”, demonstrando que a maneira ou o meio de transporte condicionava o tipo de hospedagem. Essas reminiscências das diferenciações sociais parecem persistir até os dias atuais.</p>
            <p>As diferenças entre os meios de hospedagem se referem também à localização. Nos principais centros urbanos, as pousadas voltadas para a aristocracia passam a ocupar sítios privilegiados na estrutura das cidades, próximas às praças ou a lugares de fácil acesso. Nos ambientes rurais, possuem um caráter mais rudimentar e se situam estrategicamente em relação às redes e cruzamentos de caminhos.</p>
            <p>No século XVIII, pós-absolutismo, o palácio se consolida na cidade e se apresenta na forma do “<italic>hôtel particulier</italic>”, mas com um caráter burguês, já que não abrigava mais um nobre ou príncipe. Assim, uma das origens do hotel deriva dessas mansões urbanas.</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>Eram tão cômodos os interiores dos novos palácios que uma instituição de classe superior igualmente nova, o hotel, não só toma o nome do palácio urbano da França, mas desempenha uma das suas principais funções, a de oferecer hospitalidade aparentemente sem limites – embora a troco de dinheiro. A própria formalidade e o anonimato do plano davam ao palácio certa flexibilidade de acomodação, ainda mais porque era destinado a alojar grande número de criados e cortesãos. Até hoje muito dos melhores hotéis de luxo de Roma são velhos palácios</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B19">MUMFORD, 1998</xref>, p. 410).</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>A existência de diversos cômodos, quartos, apartamentos e abrigo de serviçais, elementos recorrentes no “<italic>hôtel particulier</italic>”, constituía uma característica que se manifestou futuramente na matriz do hotel como tipologia (<italic><xref ref-type="fig" rid="f03">Figura 3</xref></italic>).</p>
            <fig id="f03">
                <label>Figura 3</label>
                <caption>
                    <title>Exemplo de <italic>hôtel particulier</italic> – Hotel de Chevreuse em Paris (1670). Arq. Jean Marot.</title>
                </caption>
                <graphic xlink:href="2318-0919-oa-19-e224889-gf03.tif"/>
                <attrib>Fonte: Gravura de Jean Marot. Domínio Público. Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://commons.wikimedia.org/wiki/File:L%27Architecture_fran%C3%A7aise_(Marot)_BnF_RES-V-371_034r-f75_H%C3%B4tel_de_Chevreuse_au_faubourg_Saint-Germain,_Plan_(adjusted).jpg">https://commons.wikimedia.org/wiki/File:L%27Architecture_fran%C3%A7aise_(Marot)_BnF_RES-V-371_034r-f75_H%C3%B4tel_de_Chevreuse_au_faubourg_Saint-Germain,_Plan_(adjusted).jpg</ext-link></attrib>
            </fig>
            <p>Os meios de hospedagem à época funcionavam como local de sociabilidade não somente de viajantes e estrangeiros, mas também da comunidade local, servindo por vezes como um verdadeiro salão de festas do lugar. Os habitantes passaram a se beneficiar das infraestruturas presentes nas hospedarias para realizar tanto as atividades de negócio (reuniões, comércio, trocas <italic>etc</italic>.), como de ócio (eventos sociais, casamentos, jantares <italic>etc</italic>.). Isso revela que a complexidade dos programas hoteleiros, como a existência de espaços destinados a eventos, remonta a essa função social ancestral.</p>
            <p>É importante notar algumas especificidades na relação entre as práticas sociais de hospitalidade e as questões de gênero. Nos Estados Unidos, as pousadas frequentemente poderiam ser geridas por uma mulher ou até mesmo por um escravo, por serem mais afins ao trabalho doméstico (JAMES <italic>et al</italic>., 2017). A hospitalidade, em grande medida, pode estar relacionada aos papéis exercidos pela mulher na divisão social do trabalho, empenhada nos trabalhos domésticos, na preparação dos alimentos e bebidas, na arrumação e higienização dos cômodos. Enfim, nas atividades de bem acolher e receber.</p>
            <p>O surgimento desses meios de hospedagem nas colônias até o final do século foi um instrumento do Imperialismo, ao viabilizar os negócios ultramarinos e ao abrigar comerciantes e viajantes envolvidos com trocas intercontinentais.</p>
            <p>Do ponto de vista da linguagem arquitetônica, verifica-se que os hotéis se apropriaram de referências classizantes e mais eruditas, ao passo que as pousadas mais simples se valiam de materiais e técnicas mais tradicionais. Em síntese, as formas arquitetônicas portadoras das práticas e conteúdos sociais da hospitalidade se manifestam até o século XIX nos pátios (claustros), nas formas arcaicas das estalagens e nos palácios urbanos (hôtel particulier).</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>O HOTEL NA MODERNIDADE</title>
            <p>Para Gilberto Freyre, o século XIX inventou o hotel; ou melhor, o “Grande Hotel”, fenômeno equivalente a uma catedral moderna. “Não se pode compreender uma cidade moderna sem o seu hotel, como não se compreendia uma cidade da Idade Média sem a sua catedral” (<xref ref-type="bibr" rid="B10">FREYRE, 1924</xref>, p. 3). Em outra crônica no Diário de Pernambuco, Freyre considerava o hotel, devido ao seu caráter híbrido, um signo da modernidade, ao afirmar:</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>Aposto que à hora que escrevo, num recanto do decimoquinto andar deste formidável Hotel Comodore, há quase tanto movimento – comércio, música, conferências, luxo, passeio de raparigas decotadas e de rapazes de ‘smoking’ pelo pátio espanhol, avivado do verde tropical de palmeiras – neste só hotel newyorkino do que em toda a Avenida Central; ou em todo o Recife</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B11">FREYRE, 1926</xref>, p. 8).</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>As metamorfoses tipológicas dos hotéis são tributárias das condicionantes sociais desencadeadas pela lógica do capitalismo industrial, que impulsionou o surgimento das viagens de lazer e, mais recentemente, do turismo. No princípio da Revolução Industrial, é possível identificar três motivações principais: o <italic>Grand Tour</italic>, o aparecimento dos balneários e as Grandes Exposições Universais.</p>
            <p>As locomoções de pessoas se intensificaram a partir do fenômeno do <italic>Grand Tour</italic>, termo em francês que surgiu em meados do século XVIII. Tratava-se de viagens realizadas pela aristocracia para fins culturais e educacionais dos mais abastados, imbuídos do interesse científico pela natureza, pelo passado, pelas descobertas arqueológicas e pelo espírito de Romantismo.</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>Os <italic>Grand Tours</italic> nas principais cidades e pontos turísticos da Europa começaram desde o início do século XVIII por jovens de posição como um meio aceitável de concluir uma educação apropriada. Eles foram acompanhados por tutores adequados, muitos dos quais, empregados pelas famílias mais ricas, possuíam elevado conhecimento e distinção</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B08">DENBY, 1998</xref>, p. 22, grifo nosso).</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>O advento do <italic>Grand Tour</italic> foi tão significativo que influenciou o surgimento da palavra turismo. O termo provém do latim <italic>tornus</italic> (torno) como substantivo e <italic>tornare</italic> (tornear, girar) como verbo, que significa a ideia de giro, de viagem circular, e identifica-se com o <italic>turn</italic> britânico, que cedeu lugar ao <italic>tour</italic> de influência francesa, constituindo a raiz da palavra em diversas línguas (<xref ref-type="bibr" rid="B17">MOESCH, 2002</xref>).</p>
            <p>Para <xref ref-type="bibr" rid="B21">Pié (2013)</xref>, a origem do turismo se relaciona ainda e mais intensamente com os efeitos das teorias higienistas e sanitaristas que repercutiram na construção de sanatórios e “hotéis turísticos” e se prestavam para fins de tratamento de saúde e lazer, respectivamente.</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>No final do século XVIII e início do século XIX, os primeiros spas onde descansar e desfrutar do jogo social apareceram na Europa: Bath, na Inglaterra; Spa na Bélgica; Baden-Baden, na Alemanha; o triângulo termal da Boêmia (Karlsbad, Marienbad e Franzensbad); Vichy, Aix-en-Provence e Aix-les-Bains, na França; Davos, na Suíça, Montecatini, na Itália ou Yalta, na Crimeia</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B21">PIÉ, 2013</xref>, p. 19).</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>Nesse contexto europeu, em 1842 o inglês Thomas Cook criou uma agência de viagem e organizou, para um público abastado, um pacote de viagem de trem e hospedagem entre Lancaster e Loughborough para fins balneários. Para <xref ref-type="bibr" rid="B05">Candilis (1973, p. 11)</xref>, ali “[...] havia nascido a grande indústria turística dos tempos modernos”.</p>
            <p>As feiras e exposições internacionais realizadas desde meados do século XIX foram também impulsos importantes para o incremento das viagens de ócio e negócio e, consequentemente, para a consolidação do hotel como expressão econômica, política e simbólica da modernidade. A dimensão econômica dessa nova realidade se assentava no processo crescente e irreversível de valorização das mercadorias, tornando-se um estímulo à produção e ao consumo não exclusivamente de coisas, mas também de experiências e valores, muitos deles materializados no hotel.</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>Os hotéis também prestaram um importante serviço aos assentamentos em que estavam localizados: ajudaram a integrá-los à expansão de redes de mercadorias, capital e informações vitais para a prosperidade da comunidade nas décadas formativas do capitalismo nacional e internacional</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B22">SANDOVAL-STRAUSZ, 2007</xref>, p. 3).</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p><xref ref-type="bibr" rid="B06">Choay (1996)</xref>, ao tratar da questão urbana na modernidade, se ressente da escassa abordagem técnica sobre a cidade. Para a autora, as inovações técnicas condicionaram a “morte da cidade” e o surgimento do “reino do urbano”. Essas transformações se iniciaram no século XIX e se manifestaram basicamente em três níveis: meios de transporte, meios de comunicações e construção. É importante notar que o hotel se encontra na encruzilhada desses avanços tecnológicos.</p>
            <p>No caso dos meios de transporte, a invenção das ferrovias e do navio a vapor constituiu uma mudança de paradigma na intensificação do fluxo de pessoas e mercadorias e testemunhou a importância da dimensão técnica na cultura urbana e arquitetônica do século XIX. Assim, vários hotéis se instalaram e se desenvolveram em torno desses nós de circulação (portos e ferrovias) e próximos a outra tipologia emergente dos oitocentos: as gares. Para <xref ref-type="bibr" rid="B20">Pevsner (1976, p. 179)</xref>, “De fato, o hotel ferroviário inicial é o mais interessante do início dos anos quarenta na Inglaterra”. No século XX os transportes urbanos, como bondes e veículos motorizados e depois os transatlânticos e aviões, dilataram as possibilidades de viagens para fins diversos.</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>Estes meios permitem uma mobilidade incomparavelmente maior: todas as mercadorias, mesmo as pesadas e pobres, podem ser transportadas para locais onde são solicitadas; as pessoas de todas as classes sociais podem fazer longas viagens, ou morar num lugar e trabalhar em outro, deslocando-se cada dia ou a cada semana</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B04">BENÉVOLO, 1997</xref>, p. 552).</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>Os hotéis passaram então a abrigar e estimular a troca de valores culturais difundidos por meios de comunicações mais eficazes (telégrafo, telefone <italic>etc</italic>.) que “[...] multiplicaram diretamente a troca de informações entre os citadinos, ampliaram seu campo de ação, transformaram sua experiência do espaço, do tempo e, por esse mesmo caminho, a estrutura de seus comportamentos” (<xref ref-type="bibr" rid="B06">CHOAY, 1996</xref>, p. 11).</p>
            <p>Os hotéis são ainda importantes exemplos de edificações que adotaram progressos tecnológicos, como o gás, a eletricidade, o telefone, a calefação, de forma pioneira. Ademais, os valores de higiene e conforto possuem lugar privilegiado nos meios de hospedagem na modernidade. Na construção, o hotel acolheu as novas técnicas e materiais, como, por exemplo, o uso do concreto, do aço e do vidro, além das possibilidades de verticalização das edificações, viabilizadas pelo elevador.</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>No século XIX e no século XX, os jornais dedicaram páginas inteiras, inclusive seções especiais, para descrever todos os detalhes de um hotel recém-inaugurado. Os próprios hotéis publicaram folhetos de lembrança lindamente impressos que descreviam similarmente não apenas o mobiliário, mas também os ‘departamentos mecânicos’, como fornos e caldeiras, lavanderias, elevadores, cozinhas, sistemas de comunicação, docas de carregamento e alojamentos</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B13">JAMES <italic>et al</italic>., 2017</xref>, p. 17).</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>O discurso sobre o hotel como signo da modernidade é quase um consenso e penetrou nas grandes narrativas, ajudando a reproduzi-lo. Entretanto, se ideologicamente a modernidade se apresentava como um discurso hegemônico, os seus desdobramentos foram distintos no tempo e no espaço, condição que revela as contradições intrínsecas da modernização. Para <xref ref-type="bibr" rid="B09">Escobar (1995)</xref>, por exemplo, a colonização é a face oculta da modernização. Esses paradoxos inerentes à expansão do capitalismo, por sua vez, interferiram nos conteúdos sociais da hospitalidade e na configuração tipológica dos hotéis, que passaram a apresentar características e relações socioespaciais peculiares a depender do lugar.</p>
            <p>Assim sendo, “[...] o hotel está em toda a parte no mundo moderno” (<xref ref-type="bibr" rid="B22">SANDOVAL-STRAUSZ, 2007</xref>, p. 1), mas seus conteúdos sociais e arquitetônicos se manifestaram distintamente. Essa premissa possibilita compreender que o desenvolvimento dos hotéis na Europa, berço da Revolução Industrial, ocorre de forma diferenciada da América do Norte, notadamente dos Estados Unidos, bem como da América Latina e dos demais continentes, como Ásia e África.</p>
            <p>Na Europa, ao longo de todo o século XIX, o hotel se consolidou como uma importante tipologia em complementaridade com tantos outros programas arquitetônicos impulsionados pela complexidade social incitada pela industrialização e pela urbanização, a exemplo do <italic>Grand Hotel du Louvre</italic> (de 1855) (<italic><xref ref-type="fig" rid="f04">Figura 4</xref></italic>), construído para abrigar os visitantes ilustres da Exposição Universal de Paris em 1855 (<xref ref-type="bibr" rid="B24">TESSIER, 2012</xref>). Na passagem do século XIX para o XX, o Hotel Ritz em Paris marcou um paradigma na evolução da hospitalidade e da tipologia hoteleira. Trata-se da disponibilização, pela primeira vez, de um banheiro privativo por acomodação ou unidade habitacional. A princípio relacionada aos hotéis de luxo, a medida vai, posteriormente, se generalizar.</p>
            <fig id="f04">
                <label>FIGURA 4</label>
                <caption>
                    <title>Gravura do Pátio do “Grand Hotel du Louvre”.</title>
                </caption>
                <graphic xlink:href="2318-0919-oa-19-e224889-gf04.tif"/>
                <attrib>Fonte: Gravura de Llewellynn Jewitt. Domínio público. Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Paris._Cour_du_Grand_H%C3%B4tel_du_Louvre_-_Charles_Rivi%C3%A8re_del._et_lith._LCCN2016652454.jpg">https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Paris._Cour_du_Grand_H%C3%B4tel_du_Louvre_-_Charles_Rivi%C3%A8re_del._et_lith._LCCN2016652454.jpg</ext-link></attrib>
            </fig>
            <p>Nos Estados Unidos, <xref ref-type="bibr" rid="B22">Sandoval-Strausz (2007)</xref> defende que o hotel americano tem especificidades reconhecidas pelo Ocidente e que, posteriormente, passam a ser um padrão para o mundo.</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>[...] alguns observadores se concentraram na distinção quantitativa dos hotéis americanos, observando seu tamanho e número; outros se concentraram em fatores mais qualitativos, citando um modo diferente de serviço e cultura pública que estava ausente em estabelecimentos similares em outros lugares. Essas e outras contas corroboram a preeminência americana na construção e administração de hotéis e indicam que a construção sustentada de hotéis chegou ao resto do mundo apenas mais tarde – uma sequência evidenciada pela adoção internacional da palavra hotel</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B22">SANDOVAL-STRAUSZ, 2007</xref>, p. 9).</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p><xref ref-type="bibr" rid="B20">Pevsner (1976)</xref> relata que ainda no século XIX, nos Estados Unidos, surge uma particularidade: os hotéis para férias. Esses exemplares eram construídos geralmente de madeira e possuíam galerias (uma espécie de terraço). Os hotéis para fins de residência é outra idiossincrasia verificada na América.</p>
            <p>No século XIX, nas colônias do sudeste asiático, a hospitalidade transformou pensões e hospedarias em modernos hotéis que ofereciam padrões de projeto, tecnologia, conforto e diversão à altura dos meios de hospedagem das metrópoles.</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>Os hotéis costumavam ser os primeiros edifícios eletrificados nas cidades coloniais graças aos geradores internos e ofereciam água corrente quente e fria (que até mesmo nos hotéis europeus e norte-americanos só estavam disponíveis no início dos anos 1900) e salas refrigeradas para armazenamento de alimentos, o que tornava disponível em climas tropicais carne e produtos lácteos que eram centrais na dieta dos coloniais, daí sua identificação e distinção dos povos indígenas</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B13">JAMES <italic>et al</italic>., 2017</xref>, p. 9).</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>Independentemente do lugar, o hotel passou a expressar novas relações entre as esferas pública e privada da sociedade, traduzidas nos ambientes dos salões de refeição e reunião e nos quartos, respectivamente. As relações de gênero são particularmente interessantes, uma vez que as mulheres ocupavam lugares reservados e segregados, embora estivessem acompanhadas do marido ou do pai. “Quanto aos quartos individuais, eram para cavalheiros. As mulheres solteiras não viajavam ou, se viajavam, especialmente nos Estados Unidos, eram cuidadosamente segregadas nos grandes hotéis” (<xref ref-type="bibr" rid="B20">PEVSNER, 1976</xref>, p. 180). Para os viajantes homens restava o privilégio de usufruir da liberdade, dos prazeres mundanos e do anonimato que o hotel oferecia e reproduzia.</p>
            <p>Os hotéis aparecem ainda como produtores e reprodutores das representações da modernidade em várias manifestações no campo da literatura, das artes visuais e cênicas e, mais recentemente, do cinema, ratificando a sua importância cultural.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>O HOTEL COMO UMA TIPOLOGIA HÍBRIDA</title>
            <p>Como síntese do argumento levantado no início do artigo, pretende-se enfatizar, face à grande amplitude do tema, a abordagem acerca do caráter híbrido da tipologia hoteleira, considerando as heranças históricas até a primeira metade do século XX e se valendo da discussão de duas categorias representativas: o “Grande Hotel” e o “Hotel de Turismo”.</p>
            <p>As mutações históricas se referem, em grande medida, aos aspectos quantitativos, como o aumento do número de unidades habitacionais, mas também aos aspectos qualitativos em relação às antigas pousadas e estalagens. Nesse contexto, ainda que esses últimos meios de hospedagem se mantivessem no século XX, eles se afirmaram como algo mais bucólico, rural, e tendiam a expressar valores nacionalistas e românticos. Na direção contrária, o hotel se acomodou notadamente no ambiente urbano e com relação aos avanços tecnológicos (meios de transporte, meios de comunicação e construções), resultando no “Grande Hotel”.</p>
            <p>Na modernidade, as metamorfoses tipológicas que ocorreram responderam às exigências econômicas, políticas e simbólicas, traduzidas, sobretudo, na hibridização programática. No caso do “Grande Hotel”, isso se deu por meio da incorporação de salões de festas e eventos, restaurantes, cafés, lojas, galerias, além de cinemas e teatros, como no <italic>Royal Hotel Plymouth</italic> (<italic><xref ref-type="fig" rid="f05">Figura 5</xref></italic>).</p>
            <fig id="f05">
                <label>FIGURA 5</label>
                <caption>
                    <title>Gravura do <italic>Royal Hotel</italic>, <italic>Theatre e Atheneum Plymouth.</italic></title>
                </caption>
                <graphic xlink:href="2318-0919-oa-19-e224889-gf05.tif"/>
                <attrib>Fonte: Gravura de Llewellynn Jewitt. Domínio público. Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Royal_Hotel_Plymouth.jpg">https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Royal_Hotel_Plymouth.jpg</ext-link></attrib>
            </fig>
            <p>As tipologias formais e funcionais se expressaram no “Grande Hotel” ou “<italic>Palace Hotel</italic>” na interseção entre as permanências históricas e as inovações da modernidade.</p>
            <p>A princípio, as tipologias formais foram representadas pelas características palacianas das edificações, tanto as concebidas como as adaptadas para fins de hospedagem. A referência mais evidente se referia ao <italic>hôtel particulier</italic>, ou seja, “[...] com os exemplos palacianos à sua frente, os poderosos e ricos criaram para si próprios o ‘grand’ ou ‘palace’ hotel” (DENBY, 1998, p. 8). Os valores tangíveis e intangíveis da modernidade materializados no “Grande Hotel” constituíam sintomas do processo de urbanização vigente, tanto no que se refere ao desenvolvimento das cidades e dos fluxos de pessoas e mercadorias, como em relação à adoção de modos de vida urbanos por parte da sociedade industrial.</p>
            <p>A clientela do “Grande Hotel” era composta, na sua maioria, por políticos, artistas e empresários (comerciantes e industriais), viajantes motivados pelo negócio e pelo ócio. Portanto, o “Grande Hotel” pode ser considerado um “hotel meio” (<xref ref-type="bibr" rid="B02">ARAUJO, 2016</xref>), posto que servia de base para os deslocamentos de viagens de trabalho e lazer, o que justifica sua localização estratégica na cidade.</p>
            <p>Até as primeiras décadas do século XX, a adoção de linguagens historicistas nos hotéis prevalecia, nomeadamente as tendências neoclássicas e ecléticas. Uma mudança formal significativa se referia a uma maior verticalização das edificações, sobretudo nos Estados Unidos, ainda que as formas de composição (base, fuste, coroamento) tradicionais e a ornamentação se mantivessem presentes. Aliás, o hotel passou a ser uma das tipologias arquitetônicas representativas, por excelência, dos arranha-céus norte-americanos.</p>
            <p>Somente no período entre guerras, outras linguagens arquitetônicas (protomodernistas, protoracionalistas e <italic>Art Déco</italic>) são apropriadas pela cultura arquitetônica e utilizadas em projetos de hotéis. Diante de um amplo panorama de exemplos, são emblemáticos o Hotel Imperial de Tóquio (1922) (<italic><xref ref-type="fig" rid="f06">Figura 6</xref></italic>), em Tóquio, projetado por Frank Loyd Wright e demolido em 1967 e o projeto do Grande Hotel Babilônia (de 1923), em Nice, concebido por Adolf Loos.</p>
            <fig id="f06">
                <label>Figura 6</label>
                <caption>
                    <title>Foto Hotel Imperial de Tóquio (1922), em Tóquio, de Frank Loyd Wright.</title>
                </caption>
                <graphic xlink:href="2318-0919-oa-19-e224889-gf06.tif"/>
                <attrib>Fonte: Autor Desconhecido. Domínio Público. Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Imperial_Hotel_Wright_House.jpg">https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Imperial_Hotel_Wright_House.jpg</ext-link></attrib>
            </fig>
            <p>No que concerne à inserção no tecido urbano, nos hotéis que ocupavam terrenos mais generosos ou quadras inteiras, o pátio (não necessariamente cerrado) persistiu como elemento estruturante do espaço. Em alguns casos, os pátios se evidenciavam na forma de um amplo átrio interno que articulava verticalmente os espaços por meio de balcões, a exemplo do <italic>Brown Palace Hotel</italic>, construído em 1892, localizado em Denver (<italic><xref ref-type="fig" rid="f07">Figura 7</xref></italic>).</p>
            <fig id="f07">
                <label>Figura 7</label>
                <caption>
                    <title>Foto dos balcões do átrio do <italic>Brown Palace Hotel</italic>, 1892 em Denver.</title>
                </caption>
                <graphic xlink:href="2318-0919-oa-19-e224889-gf07.tif"/>
                <attrib>Fonte: Anne Ruthmann. Domínio Público. Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Brown_Palace_Hotel_Atrium_Balconies.jpg">https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Brown_Palace_Hotel_Atrium_Balconies.jpg</ext-link></attrib>
            </fig>
            <p>A situação mais recorrente de localização urbana do “Grande Hotel” se verificava nos edifícios implantados no limite da rua, que ocupavam frequentemente as fronteiras laterais do lote ou as esquinas, adquirindo, nesses casos, maior realce volumétrico.</p>
            <p>As transformações na tipologia funcional podem ser consideradas sob dois aspectos principais:</p>
            <list list-type="bullet">
                <list-item>
                    <p>o primeiro, em relação à configuração do pavimento tipo: nesses níveis estavam distribuídas as unidades de hospedagem, comumente agrupadas duas a duas com as áreas de banheiro contíguas a fim de otimizar as instalações sanitárias e os <italic>shafts</italic>. A circulação horizontal se desenvolvia por longos corredores que conduziam aos quartos e se articulavam à circulação vertical (a princípio as escadas e, no século XX, os elevadores), como se verificava no <italic>Hotel Statler</italic> (1907-1911), em Buffalo, Nova Iorque (<italic><xref ref-type="fig" rid="f08">Figura 8</xref></italic>). Reminiscências tipológicas do <italic>hôtel particulier</italic> persistem:</p>
                    <p>
                        <disp-quote>
                            <p>A disposição, a sequência e a hierarquia de espaços da casa urbana nobre, diretamente derivadas do palácio, permitem compreender melhor a estrutura espacial das hospedarias contemporâneas e hotéis imediatamente posteriores. O esquema básico é semelhante, com pátio de carruagens dianteiro flanqueado por alas edificadas e um corpo intermediário voltado para o jardim posterior. [...]. Além disso, há um evidente aumento das dimensões gerais do edifício, com uma ampliação dos setores coletivos, a incorporação de um número maior de <italic>appartemnets</italic> ao <italic>corps de logis</italic>, e a introdução definitiva dos corredores circulatórios internos. Tais correlações evidenciam a proximidade da temática hoteleira à habitacional, bem como as modificações e inversões evidenciam as diferenças programáticas inerentes</p>
                            <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B15">LEÃO, 1995</xref>, p. 25, grifos do autor).</attrib>
                        </disp-quote>
                    </p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>o segundo se refere à disposição espacial e funcional dos pavimentos inferiores: esses níveis abrigavam as áreas de uso comum e do público, bem como os setores de serviços. Os salões, áreas de recepção, zonas de refeições e demais ambientes sociais possuíam dimensões e pés-direitos generosos e a disposição variava conforme o porte do hotel. Aliás, nem sempre o “Grande Hotel” era grande, a sua condição de “grande” se justificava principalmente em razão do luxo, da ostentação e da freguesia abastada. As zonas de serviço começaram a crescer em área para abrigar as instalações técnicas, de serviço e de empregados e garantir o funcionamento, conforto e higiene das áreas sociais que de fato estavam aparentes e acessíveis aos hóspedes.</p>
                </list-item>
            </list>
            <fig id="f08">
                <label>Figura 8</label>
                <caption>
                    <title>Desenho Planta do Pavimento Tipo de Hospedagem <italic>Hotel Statler</italic> (1907-1911), em Buffalo.</title>
                </caption>
                <graphic xlink:href="2318-0919-oa-19-e224889-gf08.tif"/>
                <attrib><bold>Fonte:</bold> John Willy. Domínio Pú-blico. Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Statler_Hotel_Buffalo_typical_floor_plan.jpg">https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Statler_Hotel_Buffalo_typical_floor_plan.jpg</ext-link></attrib>
            </fig>
            <p>Como o “Grande Hotel” regularmente incorporava outros usos e funções, ampliavam-se os acessos aos setores culturais e eventos (galerias, teatros e cinemas), alimentação (cafés, restaurantes, bares <italic>etc</italic>.) e comércios e serviços variados (lojas, boutiques, escritórios livrarias <italic>etc</italic>.), possibilitando uma integração significativa entre o edifício e o meio urbano e criando espaços de transição entre o público e o privado. Esses atributos em conjunto com a conectividade de fluxos ratificam o caráter híbrido do hotel na modernidade. Em síntese, o “Grande Hotel” se afirma como um fenômeno social e sociológico e um “negócio” (<xref ref-type="bibr" rid="B25">WATKIN, 1984</xref>), além de um objeto do conhecimento e da cultura arquitetônica da modernidade.</p>
            <p>A tipologia urbana da rua corredor, a continuidade espacial proporcionada pelo alinhamento das fachadas e a miscigenação de usos verificada nas principais cidades contrariava, de alguma maneira, a ideia de uma tipologia arquitetônica estrita. Muitos hotéis se instalaram em estruturas edilícias relativamente indefinidas formal e funcionalmente, mas homogêneas do ponto de vista da paisagem urbana da cidade capitalista liberal. Para Mumford:</p>
            <p>
                <disp-quote>
                    <p>Mas dificilmente causará surpresa o fato de que as principais formas arquitetônicas produzidas pela cidade comercial fossem baseadas em unidades abstratas de espaço: o comprimento das fachadas e o número de metros cúbicos. Sem nenhuma redistribuição estrutural, o hotel, o prédio de apartamentos, a loja de departamentos e o prédio de escritórios eram conversíveis uns nos outros. Onde os lucros especulativos da venda de prédios se revelavam suficientemente tentadores, a conversibilidade cedia lugar, afinal, à substitubilidade; todas as partes da estrutura eram projetadas tendo em vista não um longo tempo de serviço, mas a possibilidade de ser demolida e substituída por uma estrutura mais elevada e mais lucrativa, dentro de uma geração, algumas vezes até ainda mais rapidamente</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B19">MUMFORD, 1998</xref>, p. 474).</attrib>
                </disp-quote>
            </p>
            <p>No contexto descrito acima, o hotel se impôs ainda como um produto imobiliário, sendo a sua localização um fator estratégico no contexto dos fluxos dos viajantes, bem como em relação aos meios e infraestruturas de transportes.</p>
            <p>A categoria de “Hotel de Turismo” surgiu desde o momento em que houve um maior incremento das atividades de lazer e recreação por parte dos mais abastados e, posteriormente, pelas classes médias, a partir das garantias trabalhistas de férias remuneradas implementadas em alguns países no contexto do “<italic>Welfare State</italic>”.</p>
            <p>O “Hotel de Turismo” derivou, de algum modo, das práticas de vilegiatura e se intensificou na primeira metade do século XX a partir da valorização do lazer condicionado pela sazonalidade das estações, que envolvia o interesse pelo “sol e neve”, mas, sobretudo, pelo “sol e mar”. Dessa forma, novos usos litorâneos são acrescentados aos tradicionais (pesca, portos, indústrias <italic>etc</italic>). Para <xref ref-type="bibr" rid="B07">Dantas (2004)</xref>, trata-se de uma “maritimidade moderna”, que consiste no desfrute das amenidades do “sol e mar” para práticas sociais de banhos de mar terapêuticos, recreação na praia, vilegiatura ou veraneio e turismo litorâneo.</p>
            <p>O “Hotel de Turismo” consistia em um meio de hospedagem em que ele era, em si, o atrativo e a motivação da viagem; portanto, um “hotel fim” (<xref ref-type="bibr" rid="B02">ARAUJO, 2016</xref>), uma vez que atraía viajantes turistas e/ou veranistas interessados prioritariamente no ócio. A versão contemporânea do “Hotel de Turismo” é o <italic>resort</italic>.</p>
            <p>O hotel turístico herdava aspectos da tipologia formal e funcional do “Grande Hotel”, “[...] mas incorpora(va) novas valências e o valor da descontração dantes censurada” (<xref ref-type="bibr" rid="B16">MATOS, 2003</xref>, p. 178). Essa diferença se justifica em função da hibridização programática se manifestar por meio do agrupamento de atividades de lazer (piscinas, banhos), cassinos e desporto.</p>
            <p>É interessante notar que as exigências quanto ao sanitarismo e higienismo iniciadas no século XIX estavam presentes em várias tipologias arquitetônicas, como nas habitações coletivas, nos sanatórios e também nos hotéis. No início dos novecentos, uma vez mais se verificou interseções tipológicas entre o hotel e o hospital, particularmente por meio dos terraços e balcões que proporcionavam iluminação e ventilação natural, além da aeração dos espaços como forma de tratar e cultivar o corpo e o espírito. “O modelo sanatório, mas acima de tudo seu terraço individual ou coletivo, começa a ser inseparável das diferentes formas de habitação coletiva dedicada ao turismo, lazer, descanso ou terapia” (<xref ref-type="bibr" rid="B18">MORALES, 2013</xref>, p. 109). Esses atributos poder ser verificados no Sanatório Queen Alexandra (1906-1909), em Davos-Platz e, posteriormente, no emblemático Sanatório de Paimo (1929-1932), projetado por Alvar Aalto (1898-1976).</p>
            <p>As tipologias formais do “Hotel de Turismo” se revelaram justamente nas soluções que permitiam maior integração com o sítio e a paisagem, como forma de desfrutá-las, mas também como estratégia de alinhamento às exigências de higiene e conforto. Assim, os edifícios se desenvolveram predominantemente no sentido longitudinal e linear, buscando maior integração com a natureza, seja por meio de aberturas (portas e janelas) amplas, ou de terraços. Aliás, o terraço coletivo contínuo ou as varandas individuais alteraram significativamente a forma do edifício hoteleiro e acabaram por influenciar as propostas empreendidas pelo Movimento Moderno, que abdicou do ornamento e propôs soluções com maior ênfase estrutural, funcional e técnica.</p>
            <p>No que se refere à tipologia funcional, as concepções dos níveis dos quartos eram semelhantes aos do “Grande Hotel”, mas havia a tendência de corredores atenderem apenas a uma bateria de quartos que se voltavam para as vistas mais atrativas da paisagem ou, nos lugares de clima temperado, para o sul.</p>
            <p>De modo geral, a localização dos hotéis turísticos estava vinculada aos atrativos naturais e aos recursos turísticos, como no caso das frentes de água (mar, rios e lagos), sítios elevados (montanhas, serras <italic>etc</italic>.) ou mesmo sítios históricos e arqueológicos. Assim, não há propriamente um condicionamento tão significativo do tecido urbano preexistente na implantação do equipamento. Pelo contrário, no caso do “Hotel de Turismo”, eles são, muitas vezes, vetores e catalizadores de processos de urbanização de áreas menos populosas.</p>
            <p>Em síntese, o tipo arquitetônico do “Grande Hotel” e do “Hotel de Turismo” foi o portador dos conteúdos sociais históricos e do início do turismo na modernidade.</p>
            <p>O estímulo à construção de hotéis continuou a ocorrer após a Segunda Guerra Mundial no contexto do desenvolvimento do turismo de massas, face aos progressos nos meios de transportes, como a universalização do uso do automóvel, e ao estímulo industrial que lhe dava suporte, com a ampliação da aviação civil e a garantia dos direitos trabalhistas e condições de férias remuneradas. Somem-se a esses fatores, a implementação, por parte do Estado, de ações e políticas específicas de fomento à atividade turística e o papel desempenhado pelo mercado na construção de hotéis, inclusive na disseminação de diversas cadeias hoteleiras pelo mundo, muitas delas subsidiárias de companhias aéreas.</p>
            <p>Embora o Movimento Moderno tenha se estabelecido no período entre guerras, as suas contribuições à tipologia hoteleira só se consolidaram em meados da década de 1940, após a Segunda Guerra Mundial, ainda que tenha herdado e reelaborado o legado dos conteúdos sociais e formais do hotel historicamente constituídos. Conquanto essa discussão seja das mais relevantes, decidiu-se deliberadamente não tratá-la no escopo deste trabalho.</p>
        </sec>
        <sec sec-type="conclusions">
            <title>CONSIDERAÇÕES FINAIS</title>
            <p>O HOTEL COMO OBJETO DE REUSO: À GUISA DE CONCLUSÃO</p>
            <p>A gênese do caráter híbrido do hotel remonta a diversidade de práticas socioespaciais relacionadas à hospitalidade e às viagens, materializadas e provenientes de distintas tipologias formais e funcionais, representadas sobretudo pelos claustros cristãos, pelas estalagens e hospedarias antigas e pelos palácios urbanos (<italic>hôtel particulier</italic>).</p>
            <p>Como exemplo, os mosteiros rurais e os conventos urbanos, caracterizados por um conjunto de células (módulos) em torno de um pátio, são arquétipos não somente do hotel, mais de um número importante de outras tipologias arquitetônicas (hospitais, sanatórios, escolas, orfanatos, prisões <italic>etc</italic>.). Portanto, matrizes tipológicas que têm origem no claustro, inclusive o hotel, em virtude do seu caráter genérico e flexível, favorecem o reuso; ou seja, possuem potencial de se transformar em meios de hospedagem e vice-versa.</p>
            <p>Prova disso é a existência de diversos hotéis, sobretudo na Europa, que foram implantados em mosteiros e conventos e que cumprem um papel significativo na requalificação do patrimônio edificado e na inserção das preexistências históricas nos fluxos do turismo.</p>
            <p>O caráter híbrido do hotel incorporou novas mutações na modernidade, tanto por meio da permanência e/ou ressignificação dos aspectos tipológicos de origem histórica supracitados, como em razão da incorporação e simbiose com diversos programas arquitetônicos surgidos no contexto da modernização suscitada pela Revolução Industrial.</p>
            <p>No caso do “Grande Hotel”, um dos ícones das dimensões econômica, política e cultural da modernidade, o mutualismo programático se revelou na incorporação de outros tipos decorrentes do processo de urbanização, como as lojas, galerias, cafés, bares, salões de festas, restaurantes, teatros e posteriormente cinemas e, até mesmo, as estações e gares. Devido à localização privilegiada e à atratividade que exerciam entre viajantes e citadinos, os hotéis se tornaram centralidades na dinâmica urbana e referenciais na paisagem, reproduzindo na edificação, embora com distintas expressões formais e funcionais, o próprio hibridismo dos fluxos e movimentos inerentes à cidade.</p>
            <p>No “Hotel de Turismo”, uma categoria emergente no contexto de valorização das atividades de lazer e dos primórdios do turismo, a condição híbrida advém das interseções com outras tipologias que preconizavam a higiene e o conforto, como os sanatórios e os edifícios de habitação coletiva, sendo os balcões e varandas elementos tipológicos formais e funcionais eloquentes. A hibridização programática se traduz na incorporação de novos usos relacionados ao ócio, como piscinas, banhos termais, cassinos e equipamentos para cultivo do corpo e esportes. A expressão formal dos “Hotéis de Turismo”, para além das linguagens estilísticas, se revelaram em complexos edilícios implantados de modo mais livre e menos condicionados pela tessitura urbana. Entretanto, costumavam se valer das potencialidades paisagísticas do lugar ao mesmo tempo em que funcionavam como catalizadores do processo de urbanização turística.</p>
            <p>Em síntese, o hotel permite adaptações em função das suas características tipológicas heterogêneas e miscigenadas. A célula das suítes do hotel constitui um módulo passível de transposição para diversos outros usos, como a reconversão em unidades de habitação coletiva, salas destinadas a escritórios e usos relacionados à cura (consultórios, enfermarias, leitos), entre outros. Além da alteração, a flexibilidade da unidade mínima de hospedagem se manifesta nas possibilidades de expansão por intermédio da sua repetição como módulo.</p>
            <p>As áreas sociais e semipúblicas dos hotéis também possuem atributos formais e funcionais capazes de acolher intervenções de reuso, dada a sua polivalência, associada geralmente à generosidade e à diversidade dos espaços, usos e funções voltados para o consumo, o lazer e a sociabilidade, assim como a conectividade de fluxos internos e externos que articula.</p>
            <p>A intervenção no “Grande Hotel” e no “Hotel de Turismo”, testemunhos históricos das práticas de viagem, lazer e turismo, bem como da cultura arquitetônica da modernidade, se faz necessária tanto nos casos em que há a manutenção do uso original de hospedagem, atentando para a adaptação das edificações às exigências de novos usos e de tecnologias demandadas pelas dinâmicas contemporâneas do turismo sem, no entanto, comprometer a sua integridade material, como nas situações de reuso, importante estratégia de reabilitação de edifícios existentes, sejam eles tombados ou não.</p>
            <p>A compreensão do conceito de tipologia arquitetônica numa perspectiva histórica, teórica e crítica, articulada aos processos criativos inerentes ao projeto e à intervenção no preexistente são subsídios essenciais para promover o reuso dos hotéis, bem como de diversas categorias de edifícios híbridos.</p>
            <p>Enfim, o caráter híbrido da tipologia hoteleira, seja em relação às origens e permanências históricas ou em relação às metamorfoses e interseções com outras tipologias formais e funcionais, admitem mais apropriadamente a reconversão de usos e, consequentemente, contribuem para preservação desse patrimônio cultural edificado desencadeado pelo lazer e pelo turismo na modernidade.</p>
        </sec>
    </body>
    <back>
        <ack>
            <title>AGRADECIMENTOS</title>
            <p>À CAPES, que concedeu a Bolsa de Professor Visitante Junior para a realização da pesquisa de pós-doutorado junto ao Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa e ao <italic>Docomomo International</italic>, em Portugal</p>
        </ack>
        <fn-group>
            <title>COMO CITAR ESTE ARTIGO/<italic>HOW TO CITE THIS ARTICLE</italic></title>
            <fn fn-type="other">
                <p>PAIVA, R. A. O hotel na modernidade: metamorfoses de uma tipologia arquitetônica híbrida. <italic>Oculum Ensaios</italic>, v.19, e224889, 2022. <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://doi.org/10.24220/2318-0919v19e2022a4889">https://doi.org/10.24220/2318-0919v19e2022a4889</ext-link></p>
            </fn>
        </fn-group>
        <fn-group>
            <title>Notas</title>
            <fn fn-type="financial-disclosure" id="fn01">
                <label>1</label>
                <p>Apoio/<italic>Support</italic>: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Edital Capes nº45/2017 – Professor Visitante Junior no Exterior – Processo nº88881.170643/2018-01).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn02">
                <label>2</label>
                <p>Outra contribuição importante para o estudo das tipologias arquitetônicas é a clássica publicação de Pevsner (1976) intitulada “<italic>A History of Building Types</italic>”. No que se refere à tipologia dos hotéis, Pevsner reúne dados, exemplos e informações consideráveis, sobretudo acerca dos hotéis no século XIX.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn03">
                <label>3</label>
                <p>O acento circunflexo indica a supressão de um “s” latino, que permaneceu em <italic>hospitaliser</italic>, <italic>hospice etc</italic>.</p>
            </fn>
        </fn-group>
        <ref-list>
            <title>REFERÊNCIAS</title>
            <ref id="B01">

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