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                <journal-title>Revista Oculum Ensaios</journal-title>
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                <publisher-name>Pontifícia Universidade Católica de Campinas</publisher-name>
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                    <subject>Dossiê: Cidade em tempos de pandemia</subject>
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                <article-title>EXPERIÊNCIAS ETNOGRÁFICAS DIGITAIS: UMA NARRATIVA SOBRE A PANDEMIA NO COMPLEXO DO ALEMÃO</article-title>
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                    <trans-title>DIGITAL ETHNOGRAPHIC EXPERIENCES: A NARRATIVE ABOUT PANDEMIC IN COMPLEXO DO ALEMÃO</trans-title>
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                        <surname>SANTOS</surname>
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                        <surname>MARTINS</surname>
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                <institution content-type="original">Universidade de São Paulo | Faculdade de Arquitetura e Urbanismo | Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo | Departamento de Projeto, Espaço e Cultura I Rua do Lago, 876, 05508-080, Butantã, SP, Brasil</institution>
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                <institution content-type="orgname">Universidade Federal do Espírito Santo</institution>
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            <author-notes>
                <corresp id="c01"> Correspondência para/<italic>Correspondence to</italic>: G. PIMENTA | E-mail: <email>gustavopimenta@usp.br</email>
                </corresp>
            </author-notes>
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                    <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (<italic>Open Access</italic>) sob a licença <italic>Creative Commons Attribution</italic>, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.</license-p>
                </license>
            </permissions>
            <abstract>
                <title>RESUMO</title>
                <p>A chegada da Covid-19 provocou transformações urbanas e sanitárias que agravaram as fragilidades sociais. As medidas de restrição de circulação de pessoas impuseram outros ritmos de vida. Porém, os dispositivos tecnológicos têm desempenhado importante papel nas potenciais ações de enfrentamento às condições impostas e na ativa atuação na construção e remodelação das interações sociais, destacando-se o quão híbrido eles têm se tornado, agenciando a entrada de outros meios no espaço urbano. Esse pensamento ressalta a <italic>internet</italic> como campo de entrada para outras formas de olhar em “tempo real” as narrativas citadinas que vêm sendo contadas durante a pandemia. Com amparo na metáfora do nevoeiro, importa aqui o modo como a comunicação em rede tensiona o sentido de mobilidade, possibilitando investigar outros métodos de constituir narrativas das relações espaciais urbanas. Em especial, as narrativas de grupos para os quais as fragilidades sociais e o direito à cidade já eram uma questão a ser enfrentada antes mesmo da pandemia. A organização de grupos comunitários do Complexo do Alemão nas redes sociais para tratar das questões urgentes da comunidade inspirou o uso da etnografia digital como proposta para ensaiar o trabalho de campo nessa comunidade. Nesse sentido, este artigo pretende observar o campo virtual como extensão da etnografia tradicional, de modo que <italic>online</italic> (estar lá, nas nuvens) e <italic>offline</italic> (estar aqui, na escrita) sejam posições indissociáveis nessas narrativas pandêmicas.</p>
            </abstract>
            <trans-abstract xml:lang="en">
                <title>ABSTRACT</title>
                <p>The arrival of Covid-19 provoked urban and sanitary transformations that exacerbated social weaknesses. Measures to restrict the movement of people imposed other rhythms of life. However, technological devices have played an important role in the potential actions to confront the imposed conditions and active performance in the construction and remodeling of social interactions by reinforcing how hybrid they have become, constituting an agency for other ways of accessing urban space to be possible. This thought places the internet as an entry field for other ways of looking in “real-time”, at the city narratives that have been told during the pandemic. Supported by the fog metaphor, what matters here is how network communication tensions the sense of mobility, making it possible to investigate other methods of constituting narratives about urban spatial relations. In particular, the narratives of groups for whom social weaknesses and the right to the city were already an issue to be faced even before the pandemic. The organization of community groups of Complexo do Alemão in social networks to address urgent community issues inspired the use of digital ethnography as a proposal to rehearse fieldwork in that community. In this sense, this article intends to observe the virtual field as an extension of traditional ethnography, so that online (being there, in the clouds) and offline (being here, in writing) are inseparable positions in these pandemic narratives.</p>
            </trans-abstract>
            <kwd-group xml:lang="pt">
                <title>PALAVRAS-CHAVE</title>
                <kwd>Complexo do Alemão</kwd>
                <kwd>Covid-19</kwd>
                <kwd>Crise</kwd>
                <kwd>Dispositivos tecnológicos</kwd>
                <kwd>Nevoeiro</kwd>
            </kwd-group>
            <kwd-group xml:lang="en">
                <title>KEYWORDS</title>
                <kwd>Complexo do Alemão</kwd>
                <kwd>Covid-19</kwd>
                <kwd>Crisis</kwd>
                <kwd>Technological devices</kwd>
                <kwd>Fog</kwd>
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    <body>
        <sec sec-type="intro">
            <title>INTRODUÇÃO</title>
            <p>A CHEGADA DA Covid-19 provocou transformações urbanas e sanitárias que agravaram as fragilidades sociais. As medidas de restrição de circulação de pessoas impuseram outros ritmos de vida. “Qualquer quarentena é sempre discriminatória”, afirma o sociólogo Sousa <xref ref-type="bibr" rid="B09">Santos (2020, p. 15)</xref>, e para alguns grupos, ele avalia que é particularmente difícil. Porém, ainda que o distanciamento e o isolamento social sejam um duro aspecto da pandemia, os dispositivos tecnológicos têm desempenhado importante papel nas potenciais ações de enfrentamento às condições impostas, bem como na ativa atuação na construção e remodelação das interações sociais, reforçando o quão híbrido eles têm se tornado, agenciando a entrada de outros meios no espaço urbano.</p>
            <p>Pensar a partir desse hibridismo, conforme o antropólogo, sociólogo e filósofo <xref ref-type="bibr" rid="B06">Latour (2012)</xref> explica em sua teoria do ator-rede, presume que a atenção não é dada somente ao sujeito (ator-humano) ou de maneira que ele sobressaia, antes situando o objeto (ator não-humano) e o sujeito num mesmo patamar de relevância. Assim, eles passam a influenciar o comportamento um do outro, evidenciando-se que os atores não-humanos alteram e constituem parte do ritmo da vida dos atores-humanos, sobretudo, no modo de pensar, agir, ver e sentir. Em uma cidade em estado pandêmico, insólita e infamiliar, o campo virtual passa a viabilizar experimentações outras a serem consideradas, discutidas e refletidas. Essa forma de pensamento ressalta a <italic>internet</italic> como campo de entrada para outras formas de olhar, permitindo uma observação em “tempo real” do modo como as histórias vêm sendo contadas no âmbito do seu próprio espaço urbano.</p>
            <p>O modo de exploração das potencialidades das narrativas pandêmicas e suas formas de exposição, o acesso à conexão <italic>online</italic>, as inúmeras viabilidades das tecnologias móveis e os registros instantâneos da cidade, que passam a preencher demasiadamente o ciberespaço, oportunizam novas articulações e relações entre os fenômenos sociais.</p>
            <p>Desse modo, para este artigo, importa o modo como a comunicação em rede tensiona o sentido de mobilidade, possibilitando investigar outros métodos de constituir narrativas das relações espaciais urbanas. Em especial, as narrativas de grupos para os quais as fragilidades sociais e o direito à cidade já eram uma questão a ser enfrentada antes mesmo da pandemia.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>DO EMBAÇAMENTO DAS RUAS À NITIDEZ DAS TELAS</title>
            <p>As transformações urbanas e sanitárias impostas pela pandemia do coronavírus reestruturaram o modo como os espaços de vida são configurados, impondo-lhes novas condições para seu habitar. O conceito adotado para a concepção da articulação desses espaços de vida é balizado pela interpretação do geógrafo <xref ref-type="bibr" rid="B08">Marandola Junior (2011)</xref>. Para o autor, trata-se do próprio significado do viver citadino, composto por todos os itinerários pelos quais se trafega ao longo do dia ou, em outras palavras, por onde os citadinos estabelecem o cotidiano.</p>
            <p>Em poucas semanas, várias ações rotineiras foram modificadas, e o próprio ato de entrar em casa exige protocolos de segurança. A relação com o mundo passou a ser mediada pelas discussões de um novo normal, pautadas por taxas de transmissibilidade e letalidade, e pelos novos modos de convivência em sociedade. Partindo dessa caracterização e dos efeitos gerados nesse cenário, a metáfora do nevoeiro, do arquiteto <xref ref-type="bibr" rid="B11">Wisnik (2012)</xref>, ajuda a pensar a cidade em estado de pandemia. O nevoeiro, como metáfora, expressa o embaçamento que compromete a nitidez excessiva da contemporaneidade, como um grande véu que nos cobre de incertezas e eventos traumáticos:</p>
            <p><disp-quote>
                    <p>[...] cai de repente e obscurece a visão dos seres (humanos e não-humanos), é o véu que cobre por um instante a realidade, desencadeando uma situação a partir da qual as coisas transmutam e trocam de posição [...] é alternadamente disjuntivo ou conjuntivo entre alto e baixo, céu e terra: termo mediador que junta extremos e os torna indiscerníveis, ou se interpõe entre eles de modo que eles não podem se aproximar</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B11">WISNIK, 2012</xref>, p. 231).</attrib>
                </disp-quote></p>
            <p>A nitidez de que fala <xref ref-type="bibr" rid="B11">Wisnik (2012)</xref> deve ser pensada pelo propósito oposto ao qual costuma ser associada. Para ele, viver na nitidez é como estar cego pelo excesso de informações, tomado pelo controle das codificações. Ou seja, diferentemente do nevoeiro, que desestabiliza e torna inseguro, a nitidez apresenta um mundo perfeito e seguro que impossibilita ver e pensar linhas de fuga para outra realidade, senão a estabelecida.</p>
            <p>Dissolvido nessa névoa, o habitar da cidade encontra novos espaços, outros lugares. A comunicação virtual, ao mesmo tempo em que tenta reassumir a nitidez, em termos de manutenção do <italic>status quo</italic> de normalidade, com atividades como <italic>home office</italic> e de compras virtuais, também pode ser utilizada na contestação da aplicação dessas alternativas para todos, acendendo a discussão de um novo normal para além de medidas de restrição de mobilidade.</p>
            <p>Nessa perspectiva, em que as distâncias são desmanchadas em termos de comunicação, emergindo das telas outras visibilidades, a escolha de uma experiência no campo virtual por meio de uma metodologia etnográfica apresenta outra via no que tange aos atravessamentos da vida na cidade sintomática frente às medidas de restrições de mobilidade.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>DO ESPAÇO REAL PARA O VIRTUAL</title>
            <p>Os meios de comunicação em massa ou <italic>mass media</italic> contribuíram para a intensificação dos fluxos de informações e para uma pluralidade de discursos outros que passaram a ecoar junto deles. Nesse debate, o filósofo <xref ref-type="bibr" rid="B10">Vattimo (1992)</xref> chama a atenção para o modo como o advento desses meios de comunicação possibilitou uma profusão de outras narrativas e, com isso, uma abertura para a crítica das narrativas oficiais como única versão da história.</p>
            <p>Esse pensamento potencializa a audição de outras vozes, com força de propagação para ressoar, contando as próprias versões e demonstrando, por meio dos olhares e registros, o modo como enxergam seus espaços de vida. A multiplicidade das mídias móveis e redes sociais digitais, especialmente nesse momento, desempenha um importante papel nas relações sociais. As manifestações pelas redes por meio das publicações de textos, imagens e vídeos tornam-se fragmentos de realidade de distintas vozes que utilizam esse campo para pensar, criar e agir num espaço que as represente na sociedade pandêmica.</p>
            <p>Tomamos aqui por base o conceito de virtual expresso pelo filósofo e sociólogo <xref ref-type="bibr" rid="B07">Lévy (1996, p. 16)</xref>, ou seja, “[...] entendido como o que existe em potência e não em ato, [...] extensão do real, ou seja, é um real latente”. O ciberespaço compreendido como ambiente de possibilidades de extensão desse real se perfaz a partir da atuação dos sujeitos; dito de outra maneira, na sociedade de comunicação em massa o ciberespaço pode ser usado tanto para reproduzir comportamentos e valores que transcendem os meios digitais quanto para produção de comportamentos outros que emancipem certos grupos no processo de tomada da palavra. Com base nesses movimentos é que a potência de observação do campo virtual evidencia-se como extensão da etnografia tradicional para captação das nuances discursivas que circulam em meio às nuvens digitais.</p>
            <p>O filósofo <xref ref-type="bibr" rid="B02">Han (2018, p. 34)</xref>, num de seus ensaios, afirma que a temporalidade se dá num “presente imediato”, porque as informações são consumidas e produzidas sem intermediadores — como o próprio autor exemplifica, de <italic>Windows</italic> para <italic>Windows</italic> —, em alusão às janelas abertas no ambiente digital, tornando possível uma descarga de afetos instantâneos.</p>
            <p>Nessa esteira de pensamento, observa-se que o status <italic>online</italic> pode reverberar os impactos gerados na cidade na instantaneidade, proporcionando a esse campo ser uma extensão do real que se propaga também pelas redes. Noutras palavras, a rede pode entrelaçar as reverberações da cidade em pandemia e suas ressonâncias para o campo real latente.</p>
            <p>E no âmbito dessa abordagem, a associação da teoria do ator-rede desenvolvida por <xref ref-type="bibr" rid="B06">Latour (2012)</xref>, em seus ensaios sobre antropologia simétrica, propõe pensar em uma perspectiva na qual os atores humanos (sujeitos) e não humanos (objetos) ganham o mesmo foco. De acordo com o autor, os objetos são dotados de agência, significando “[...] estar associado de tal modo que fazem outros atores fazerem coisas” (<xref ref-type="bibr" rid="B06">LATOUR, 2012</xref>, p. 158). Pensamento que contribui para um rompimento da dualidade do binômio sujeito-objeto, criando-se então um híbrido, uma nova entidade que se constrói a partir do agenciamento, conexões e ações do ator-rede.</p>
            <p>Na tese de <xref ref-type="bibr" rid="B06">Latour (2012)</xref>, o agenciamento entre o ator humano e o não humano não se constitui como substância consolidada, ou seja, não é definição. Para ele, o encontro pode ter variações e manifesta sempre um outro. Nesse sentido, tomando o real latente como evento que agencia o encontro entre sujeitos (humanos) e tecnologia (não humano), este artigo se constitui do trabalho de campo virtual como extensão da etnografia tradicional.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>INFOVIAS DO GABINETE DE CRISE DO COMPLEXO DO ALEMÃO</title>
            <p>A construção deste artigo partiu da notícia de que grupos comunitários se juntaram na criação de um gabinete de crise para pensar em maneiras, e agi-las, de reduzir os danos gerados pela Covid-19 no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro<xref ref-type="fn" rid="fn01">1</xref>.</p>
            <p>Nesse sentido, ele nasce das inquietações e atravessamentos pelo nevoeiro e, ao mesmo tempo, do embaçamento como possibilidade de escrever a partir de uma técnica alternativa ao trabalho de campo num momento de pandemia no qual não é segura a locomoção pela cidade<xref ref-type="fn" rid="fn02">2</xref>. O modo como o Gabinete de Crise do Complexo do Alemão se organizou nas redes sociais para tratar das questões urgentes da comunidade por meio de compartilhamento de informação inspirou o uso da etnografia digital como proposta para ensaiar o trabalho de campo nessa comunidade. As postagens, em linhas gerais, abordam as fragilidades sociais anteriores período da pandemia que, neste momento, agravadas por seus efeitos, intensificaram o sentimento de precariedade urbana e vulnerabilidade social da comunidade.</p>
            <p>É no arcabouço dessa conjuntura, em que se acentuam ainda mais as questões sociais e sanitárias para os moradores do Complexo do Alemão, em meio a uma crise pandêmica, que a metáfora do nevoeiro se constitui e se difunde, trazendo consigo não apenas o sentimento de incerteza, mas também a transformação do cotidiano pela tecnologia disseminada na troca de informação por nuvens.</p>
            <p>Embora o foco do artigo não seja analisar o conteúdo das publicações do Gabinete de Crise do Complexo do Alemão, interessa aqui a apropriação das postagens como forma de experienciar o campo. É a maneira pela qual o grupo se articula a partir desses tempos de imobilidades gerados pela Covid-19 que o campo real latente se apresenta como oportuno para experimentações da cidade, mediadas pelas infovias que a percorrem e conectam a ela as interações sociais do ciberespaço.</p>
            <p>As infovias podem ser pensadas assim como se entende a estruturação da malha urbana que circunda uma cidade; desse modo, as trocas de mensagens e postagens correm por caminhos virtuais dentro das malhas da rede virtual. Contudo, no trato desse espaço, verifica-se que esses caminhos correspondentes às trocas e envios de informações são destituídos de características ou formas definidas, pois o que dá corpo às infovias são a maneira e o caminho de repercussão das mensagens postadas pelos usuários. Noutras palavras, o que dá corpo às infovias são os agenciamentos no campo real latente e as experiências que essas conexões possibilitam.</p>
            <p>“A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca”, nos termos do filósofo <xref ref-type="bibr" rid="B05">Larrosa, (2014, p. 25)</xref>. Ela se apresenta como gesto de interrupção, suspensão do automatismo e da vontade como procedimentos para abertura ao acontecimento a título de experiência e não de experimento, algo previsível e/ou estabelecido. Para ele, a experiência (e não a verdade) dá sentido ao conhecimento e à aprendizagem. O acontecimento tomado como experiência repercute na linguagem como marca daquilo que afeta e faz padecer. Assim, as postagens do grupo são tomadas como aberturas para adentrar as infovias do Complexo do Alemão e desassociar o excesso de nitidez das narrativas policialescas acerca das favelas a fim de apreender o acontecimento da pandemia por meio das narrativas da própria comunidade.</p>
            <p>Para a composição do percurso etnográfico, utilizamos duas ferramentas de navegação, o <italic>Google Earth</italic><xref ref-type="fn" rid="fn03">3</xref> e o <italic>Google Street View</italic>, esta última particularmente permitindo ao usuário caminhar por vias de acesso previamente registradas, conforme mostram as <italic><xref ref-type="fig" rid="f01">Figuras 1</xref></italic> e <italic><xref ref-type="fig" rid="f02">2</xref></italic>.</p>
            <fig id="f01">
                <label>FIGURA 1</label>
                <caption>
                    <title>Delimitações geográficas do Complexo do Alemão</title>
                </caption>
                <graphic xlink:href="2318-0919-oa-19-e225193-gf01.tif"/>
                <attrib><bold>Fonte:</bold> Adaptado pelos autores (2020), com base em <italic>Google Earth</italic> (2020).</attrib>
            </fig>
            <fig id="f02">
                <label>FIGURA 2</label>
                <caption>
                    <title>Opções de percursos gerados no <italic>Google Earth</italic> através da ferramenta do <italic>Google Street View</italic>.</title>
                </caption>
                <graphic xlink:href="2318-0919-oa-19-e225193-gf02.tif"/>
                <attrib><bold>Fonte:</bold> Adaptado pelos autores (2020), com base em Google Earth (2020).</attrib>
            </fig>
            <p>Através de depoimentos e entrevistas de diferentes pontos do Complexo do Alemão fornecidos pelo Instagram4 do Gabinete de Crise, um caminho contínuo foi traçado, definindo um ponto de início do trajeto, na Rua Antônio Austregésilo, em branco; e outro de fim, na Rua Joaquim Queiroz, em vermelho, como mostra a <italic><xref ref-type="fig" rid="f03">Figura 3</xref></italic>.</p>
            <fig id="f03">
                <label>FIGURA 3</label>
                <caption>
                    <title>Trajeto escolhido para realização da experimentação etnográfica digital no Complexo do Alemão</title>
                </caption>
                <graphic xlink:href="2318-0919-oa-19-e225193-gf03.tif"/>
                <attrib><bold>Fonte:</bold> Adaptado pelos autores (2020), com base em <italic>Google Earth</italic> (2020).</attrib>
            </fig>
            <p>E a despeito de o trajeto ter início e fim, a metáfora do nevoeiro, pela opacidade e falta de visibilidade, possibilita ao leitor/pesquisador diferentes entradas e abordagens no campo, porque a caminhada como acontecimento (abertura) não expressa uma posição fixa. O usuário está exposto e vulnerável a permeabilidades outras para além daquelas passíveis de serem narradas no trajeto selecionado. Por não ser a experiência posição (e nem suas ‘cognações’: opor, impor, propor), e sim ex-posição, <xref ref-type="bibr" rid="B05">Larrosa (2014)</xref> afirma que a experiência está envolta em vulnerabilidade e risco.</p>
            <p><disp-quote>
                    <p>O sujeito da experiência é um sujeito ‘ex-posto’. Do ponto de vista da experiência, o importante não é nem a posição (nossa maneira de pormos), nem a ‘oposição’ (nossa maneira de opormos), nem a ‘imposição’ (nossa maneira de impormos), nem a ‘proposição’ (nossa maneira de propormos), mas a ‘ex-posição’, nossa maneira de ‘ex-pormos’, com tudo o que tem vulnerabilidade e risco</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B05">LARROSA, 2014</xref>, p. 26).</attrib>
                </disp-quote></p>
            <p>Por esse viés, a etnografia digital, assim como a tradicional, potencialmente se revela um modo de imersão no campo. Modo esse que considera a observação do comportamento social em rede e sua interação com a comunidade <italic>online</italic> mediante um campo repleto de dados que podem ser coletados, analisados e transcritos.</p>
            <p>Para a socióloga Christine <xref ref-type="bibr" rid="B03">Hine (2008</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B04">2015)</xref>, o conceito de rede pode ser associado ao modo como os usuários constroem suas atuações, promovendo uma esfera comum que funciona mediante o uso da internet. Em diálogo, <xref ref-type="bibr" rid="B01">Alves e Ferraz (2017, p. 13)</xref> argumentam que “[...] cada ator social ou digital pode ser produto e produtor dos referenciais culturais que marcam os diferentes tempos e redes sociais. Isso faz com que as pesquisas etnográficas no campo digital possam ficar datadas”.</p>
            <p>A atuação social e a tecnologia tensionam essa hibridização, que se reflete por meio das mídias móveis e redes sociais. As práticas entre o que até então se poderia pensar como <italic>online</italic> e <italic>offline</italic> sobrepõem-se e uma passa a se refletir na esfera de atuação da outra. Em complemento, para <xref ref-type="bibr" rid="B03">Hine (2008, p. 17)</xref>, “[...] a condição <italic>online</italic> em tecnologias de mídias móveis dissolveu as fronteiras entre <italic>online</italic> e <italic>offline</italic>. As incursões passaram a ser carregadas de dados e, mais do que [...] experimentais, elas costumam ser habituais”. Para a autora, a rede digital está imbricada no contexto cultural contemporâneo, o que permite outros métodos de experimentação e coleta de dados.</p>
            <p>Nesse sentido, o Instagram pode ser pensado como projetor das atividades do grupo a todos os usuários da rede e, por meio desse recurso e abertura, pode-se criar uma aproximação com as movimentações, ações e decisões tomadas pelos envolvidos. E, em tempos de medidas de restrição de mobilidade, essa abordagem constitui, no real latente, conexões e ações entre atores-rede na experimentação do campo virtual pelos pesquisadores e na elaboração das narrativas pandêmicas desses grupos locais.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>ENSAIO DA EXPERIÊNCIA ETNOGRÁFICA DIGITAL</title>
            <sec>
                <title>OUVINDO OS MORADORES, RESSONÂNCIAS DO CAMPO</title>
                <p>No Complexo do Alemão, a crise alimentar e sanitária não decorre de um momento de pandemia. Ela existe<xref ref-type="fn" rid="fn05">5</xref>. Essa acepção deriva do que o sociólogo Boaventura de Sousa <xref ref-type="bibr" rid="B09">Santos (2020)</xref> denomina normalidade da exceção. Para ele:</p>
                <p><disp-quote>
                        <p>A actual pandemia não é uma situação de crise claramente contraposta a uma situação de normalidade. Desde a década de 1980 — à medida que o neoliberalismo se foi impondo como a versão dominante do capitalismo e este se foi sujeitando mais e mais à lógica do sector financeiro —, o mundo tem vivido em permanente estado de crise. Uma situação duplamente anómala. Por um lado, a ideia de crise permanente é um oximoro, já que, no sentido etimológico, a crise é, por natureza, excepcional e passageira, e constitui a oportunidade para ser superada e dar origem a um melhor estado de coisas. Por outro lado, quando a crise é passageira, ela deve ser explicada pelos factores que a provocam. Mas quando se torna permanente, a crise transforma-se na causa que explica tudo o resto […]. O objectivo da crise permanente é não ser resolvida</p>
                        <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B09">SOUSA SANTOS, 2020</xref>, p. 5).</attrib>
                    </disp-quote></p>
                <p>Quando Sousa Santos (2020) enxerga a crise em estado permanente como transformada na causa, ele não apenas instaura a ideia de crise entendida como estado de exceção, mas também põe abaixo as ilusões de que os seus efeitos serão transitórios, ao menos para alguns grupos. Particularmente, o autor concentra sua análise da quarentena ao Sul. Para os que acompanham a obra do autor, o Sul não constitui coordenada geográfica, antes designando um modo de caracterizar grupos que padecem de formas de marginalizações sociais decorrentes da formação e dos efeitos de explorações socioculturais.</p>
                <p>As histórias, sentimentos e inquietações contadas pelos sujeitos que se encontram na linha de frente do Gabinete de Crise do Complexo do Alemão compõem essa narrativa da dificuldade de viabilização da quarentena por aqueles que se ocupam da função de cuidadores, “[…] cuja missão é tornar possível a quarentena ao conjunto da população” (<xref ref-type="bibr" rid="B09">SOUSA SANTOS, 2020</xref>, p. 15). Expostos à mesma dificuldade estão, muitos trabalhadores, moradores das favelas, que exercem atividades no mercado de trabalho informal e não estão assegurados pelos direitos trabalhistas. Para essas pessoas, a organização comunitária se apresenta como alternativa para o enfrentamento das adversidades que o Estado não consegue dirimir. Como pensar e agir no contexto de um novo normal numa comunidade em que a normalidade se constitui da exceção?</p>
                <p>Questões para pensar e agir no modo como a pandemia afeta as comunidades em contexto semelhante ao do Complexo do Alemão motivaram a <italic>hashtag</italic><xref ref-type="fn" rid="fn06">6</xref> #Covid19NasFavelas. Ela foi impulsionada pelo Gabinete de Crise, especialmente em 21 abril de 2020, quando o número de óbitos por Covid-19 aumentava nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, e os jornais anunciavam o colapso do sistema público de saúde.</p>
                <p>No mesmo dia, foram publicadas outras postagens informando a prestação de contas da arrecadação até aquele momento e a atualização do avanço do coronavírus, na forma de cartilha (com dados do Alerta Coronavírus do <italic>Google</italic>) e de vídeo. Em relação aos números da pandemia no Complexo do Alemão, o cofundador do Papo Reto — amparado por dados da Clínica de Família Zilda Arns, uma das clínicas que atende em torno de 50 mil famílias dos 180 mil moradores do Complexo do Alemão —, chama a atenção para o avanço da doença e suas particularidades na favela.</p>
                <p>Os meses de abril, maio e junho foram os de maior número de postagens na página do Gabinete de Crise, que concluiu suas operações no dia 17 de setembro de 2020. Além da <italic>hashtag</italic> #Covid19NasFavelas e da repetitiva mensagem “Se puder, fique em casa. Se precisar sair, use máscara!”, outras palavras marcaram as ações efetuadas e servem de instrumento de visibilidade das interações promovidas pelo grupo, conforme demonstrado pela nuvem de palavras<xref ref-type="fn" rid="fn07">7</xref> a seguir (<italic><xref ref-type="fig" rid="f04">Figura 4</xref></italic>):</p>
                <fig id="f04">
                    <label>Figura 4</label>
                    <caption>
                        <title>Nuvem de palavras formada pela descrição de todos os <italic>posts</italic> do <italic>Instagram</italic> do Gabinete de Crise.</title>
                    </caption>
                    <graphic xlink:href="2318-0919-oa-19-e225193-gf04.tif"/>
                    <attrib>Fonte: <italic>Wordle</italic> (2020).</attrib>
                </fig>
                <p>As postagens demonstram, como pode ser visto pela <italic><xref ref-type="fig" rid="f05">Figura 5</xref></italic>, as principais ações do Gabinete de Crise do Complexo do Alemão. As pautas tangenciam as condições urbanas e sanitárias, com temas que reportam e, ao mesmo tempo, (re)postam uma narrativa dos problemas estruturais com os quais as famílias convivem. A (re)postagem, nesse caso, exprime a posição que utiliza as redes sociais para sensibilização da pauta de suas agendas, buscando gerar engajamento para o movimento e o fortalecimento das ações dos participantes, conforme exibido na <italic><xref ref-type="fig" rid="f06">Figura 6</xref></italic>.</p>
                <fig id="f05">
                    <label>FIGURA 5</label>
                    <caption>
                        <title>Postagens e ações do grupo Gabinete de Crise do Complexo do Alemão no <italic>Instagram</italic>.</title>
                    </caption>
                    <graphic xlink:href="2318-0919-oa-19-e225193-gf05.tif"/>
                    <attrib><bold>Fonte:</bold> Adaptado pelos autores (2020) de <italic>Instagram</italic> Gabinete de Crise do Complexo do Alemão (2020).</attrib>
                </fig>
                <fig id="f06">
                    <label>FIGURA 6</label>
                    <caption>
                        <title>Emaranhado de conexões e engajamentos potencializadas entre as infovias do ciberespaço.</title>
                    </caption>
                    <graphic xlink:href="2318-0919-oa-19-e225193-gf06.tif"/>
                    <attrib><bold>Fonte:</bold> Adaptado pelos autores (2020), de <italic>Instagram</italic> Gabinete de crise do Complexo do Alemão (2020).</attrib>
                </fig>
            </sec>
            <sec>
                <title>COMUNIDADE E PANDEMIA, REPERCUSSÕES DO CAMPO</title>
                <p>O trajeto proposto mediante as infovias fornecidas pelo <italic>Google Earth</italic> intercala rua e fala (um lá, outro aqui), condensando as experiências vivenciadas pelas aproximações com os registros do Gabinete de Crise junto à comunidade do Alemão durante as ações e os caminhos habilitados pelo aplicativo. Esse será o real latente do percurso, que se constrói tanto pelas imagens fornecidas ao longo do trajeto quanto pelas manifestações virtuais postadas pelo grupo durante a estada no campo.</p>
                <p>Hoje, dia 16 de julho de 2020, o jornal anuncia que o Brasil atinge 2 milhões de casos de coronavírus, e o Rio de Janeiro, outros oito estados e o Distrito Federal apresentam alta de mortes pela média móvel<xref ref-type="fn" rid="fn08">8</xref>. Computador ligado. Numa tela, um mapa com imagens capturadas de outubro de 2013, que permitem andar por aquele espaço ainda congelado no tempo. Na outra, um diário de campo aberto — aberto, porque, a qualquer momento, pode receber uma atualização na página do Instagram do Gabinete de Crise do Complexo do Alemão. <italic>On</italic> e <italic>off</italic>. Aqui e lá. Duas situações que se entrecruzam, ainda que com um intervalo de sete anos entre elas.</p>
                <p>O percurso tem como ponto de partida a Rua Antônio Austregésilo (<italic><xref ref-type="fig" rid="f07">Figura 7</xref></italic>). Aqui vejo a rua larga da minha janela, no Bairro Santa Cecília, adjacente ao Bairro Higienópolis, na capital paulistana, ser substituída pelas vielas estreitas que claramente evidenciam as mudanças urbanas e residenciais a cada novo clique de avanço pelas ruas do Complexo do Alemão. As casas, nesses avanços de percurso, despem-se paulatinamente dos revestimentos e mostram as peles nuas, revelando o laranja-opaco das lajotas e o cimento queimado das estruturas aparentes.</p>
                <fig id="f07">
                    <label>FIGURA 7</label>
                    <caption>
                        <title>Início do percurso a partir da Rua Antônio Austregésilo.</title>
                    </caption>
                    <graphic xlink:href="2318-0919-oa-19-e225193-gf07.tif"/>
                    <attrib>Fonte: <italic>Google Street View</italic> (2013).</attrib>
                </fig>
                <p>À medida que a caminhada prossegue, um intenso comércio surge: lojas de reparos de carros, quitandas, lojas de material de construção, minimercado, salão de beleza e muitos outros. Estabelecimentos que disputam atenção com igrejas e uma praça para recreação, incluindo um espaço para skatistas. Muitas pessoas circulando pela rua em meio a um tráfego intenso de carros; vida corrida e acelerada.</p>
                <p>Registros de um contexto anterior ao descrito nas postagens. Estas, diferentemente, diante dos acontecimentos, recomendam o esvaziamento das ruas aos que podem ficar em casa e a observação dos protocolos de segurança aos que precisam sair. O perigo do contágio, notícias de mortes e hospitais com alas médicas saturadas expõem uma cidade insólita e a fragilidade do homem.</p>
                <p>Durante o percurso, observam-se as condições às quais os moradores já eram expostos, mesmo antes da pandemia. Diante dos novos protocolos de higiene, como casas arejadas e, em caso de residentes doentes, separação do restante da família, a urgência de adoção de medidas sanitárias para reestruturar a qualidade de vida dessas pessoas está muito distante da situação de outras, que habitam bairros em áreas valorizadas.</p>
                <p>As medidas de restrição reforçam o sofrimento daqueles que padecem pela exclusão social, cuja luta pela sobrevivência e imprescindibilidade de ajuda impõem, mesmo na quarentena, sua necessidade de sair de casa e correr o risco de contaminação para trabalhar, muitas vezes no mercado informal, ou mesmo a fim de buscar doações.</p>
                <p>Em sequência ao trajeto, percorre-se um íngreme morro, onde é possível avistar todas aquelas estreitas vielas atravessadas no início, destacando-se que agora não somente os revestimentos foram deixados para trás, mas também as calçadas e asfaltos do percurso. São muitas as curvas sinuosas no trajeto e o jeito como cada uma delas serpenteia entre as casas, que expõem trincas e rachaduras.</p>
                <p>Uma parada para um gole de café. Pausa. As tecnologias avançaram rápido, mas a cidade não evoluiu no mesmo processo. O ritmo é lento, moroso, e a diferença de intervalos entre as imagens e sua ressonância pelos moradores atualmente podem ser entendidas e vistas como sobreposições de um mesmo cenário. A cada pequena abertura, uma nova narrativa abre espaço para ser contada. Embora a presença se faça num real latente, os espaços de vida não deixam de ser atravessados por alteridades neles constituídas, entre as pequenas vielas, entre as fendas, sob o mar de telhados de fibrocimento que os cobrem ou até mesmo sob o medo que nos assola.</p>
                <p>No caminho, as ruas do mapa congelado de 2013 entrelaçam-se com as atividades programadas de 2020. Nas redes, promove-se o cadastramento e nas ruas do Alemão distribuem-se alimentos e produtos de limpeza. Em outra ação, pequenas equipes médicas também fazem marcações virtuais para que as consultas aos moradores e a avaliação de suas condições básicas de saúde sejam eficazes. Noutros dias, são programadas limpezas, para que as ruas e equipamentos públicos sejam dedetizados.</p>
                <p>Na Rua Canitar (<italic><xref ref-type="fig" rid="f08">Figura 8</xref></italic>), um fenômeno chamou a atenção, convidando a uma comparação entre as imagens do percurso virtual e as postagens do grupo no <italic>Instagram</italic>. Percebe-se que esse espaço aparentemente manteve o ritmo habitual, ou seja, um vaivém de pedestres, ciclistas, ambulantes, aquele bate-papo casual, num entrelaçamento entre aqui e lá, ainda que em condições completamente distintas.</p>
                <fig id="f08">
                    <label>FIGURA 8</label>
                    <caption>
                        <title>Moradores saindo para fazer os recolhimentos das cestas básicas e <italic>kits</italic> de limpeza na Rua Canitar.</title>
                    </caption>
                    <graphic xlink:href="2318-0919-oa-19-e225193-gf08.tif"/>
                    <attrib><bold>Fonte:</bold><italic>Instagram</italic> Gabinete de crise do complexo do alemão (2020).</attrib>
                </fig>
                <p>Mediante novos cliques, os fios que antes contracenavam com as nuvens do céu agora faceiam à frente das janelas, como uma espécie de grade, restringindo o simples ato de olhar para a rua, mostrando que mesmo nas favelas pode haver diferença na distribuição de renda. Na parte mais baixa, veem-se equipamentos e serviços, mas à medida que se sobe, a oferta dessas atividades diminui e as casas assumem aspectos mais típicos de aglomerados subnormais<xref ref-type="fn" rid="fn08">9</xref> (<italic><xref ref-type="fig" rid="f09">Figura 9</xref></italic>). Na última parte do trajeto, ficou claro como o espaço urbano do Complexo do Alemão se configura e se transforma ao ser trilhado das bordas para o interior. Concluído na Rua Joaquim de Queiroz, o caminho sinuoso que as vias foram adquirindo, as costuras de fios e o adensamento das residências, com as peles das casas expondo-se e contando suas histórias, evidenciam as transitoriedades como ordenação que compõe o seu cenário urbano.</p>
                <fig id="f09">
                    <label>FIGURA 9</label>
                    <caption>
                        <title>Casas construídas justapostas e cerceadas por um emaranhado de fios.</title>
                    </caption>
                    <graphic xlink:href="2318-0919-oa-19-e225193-gf09.tif"/>
                    <attrib>Fonte: <italic>Google Street View</italic> (2013).</attrib>
                </fig>
            </sec>
        </sec>
        <sec sec-type="conclusions">
            <title>CONSIDERAÇÕES FINAIS</title>
            <p>O Gabinete de Crise do Complexo do Alemão emerge da urgência de reunir diferentes pautas, fragmentadas antes da pandemia, numa tentativa de minimizar as fragilidades sociais que não se modificam entre as imagens de 2013 e as postagens de 2020. São narrativas que reafirmam a crise enfrentada no Complexo do Alemão pondo em perspectiva a noção de normalidade e todos os direitos que deveriam ser observados.</p>
            <p>Após seis meses de operação, o Gabinete comunicou em sua página do <italic>Instagram</italic>, o fim de suas atividades frente ao discurso de minimização dos efeitos da pandemia da Covid-19 no Complexo do Alemão. A decisão foi tomada após a observação, pelo grupo, de que, juntamente com a diminuição das medidas de restrição pelas autoridades, a população relaxou o distanciamento social.</p>
            <p>Após a dissolução do Gabinete, as ações de cada movimento voltam-se aos grupos sociais anteriormente atendidos. O movimento Mulheres em Ação no Alemão fortalecendo o apoio e ajuda às chefes de família, vítimas ou não de violência; o coletivo Voz das Comunidades reorganizou os períodos de entregas das marmitas e promoveu testagens do vírus; e o coletivo Papo Reto construiu um cadastro mais detalhado para atender as famílias e as necessidades surgidas com a pandemia.</p>
            <p>Este retorno dialoga com o que <xref ref-type="bibr" rid="B02">Han (2018)</xref> denomina por enxame digital: indivíduos que se reúnem, em mídias digitais, semelhante aos animais que formam enxames, em aglomerados e de maneira efêmera e instável. O argumento discute a ideia de que a efemeridade das relações digitais tem por efeito a incapacidade de um agir em conjunto para pôr em cheque as relações de poder dominante, de modo que, o enxame em si, não se externa como voz, sendo percebido tão somente como barulho.</p>
            <p>A nitidez retoma posição dispersando o nevoeiro quando a agência entre humanos e não humanos opera pelo enxame como redundância. Isto é, quando se fixa apenas na urgência e repete as narrativas de crise como consequência de um momento e não parte de um estabelecido. O exercício etnográfico digital mostra uma possibilidade de operar na ressonância dos componentes do trabalho de campo para compreender os agenciamentos performáticos das narrativas <italic>online</italic> (estar lá, nas nuvens) e <italic>offline</italic> (estar aqui, na escrita). Pensar narrativas outras que possam repercutir em fuga à expressão dominante e, com isso talvez, transformar o barulho em pequenos sussurros.</p>
        </sec>
    </body>
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            <title>COMO CITAR ESTE ARTIGO/<italic>HOW TO CITE THIS ARTICLE</italic></title>
            <fn fn-type="other">
                <p>PIMENTA, G.; MARTINS, L. G. Experiências etnográficas digitais: uma narrativa sobre a pandemia no Complexo do Alemão. <italic>Oculum Ensaios</italic>, v.19, e225193, 2022. <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://doi.org/10.24220/2318-0919v19e2022a5193">https://doi.org/10.24220/2318-0919v19e2022a5193</ext-link></p>
            </fn>
        </fn-group>
        <fn-group>
            <title>NOTAS</title>
            <fn fn-type="other" id="fn01">
                <label>1</label>
                <p>Matéria “Um rolê pelo Complexo do Alemão em meio à pandemia mostra a realidade que ninguém vê”, da série Minha Quebrada, produzida pelo site Yahoo Brasil com a proposta de mostrar as periferias do Brasil pelo olhar dos moradores. <italic>Link</italic> da matéria disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://br.noticias.yahoo.com/um-role-pelo-complexo-do-alemao-em-meio-a-pandemia-mostra-a-realidade-que-ninguem-ve-070014307.html">https://br.noticias.yahoo.com/um-role-pelo-complexo-do-alemao-em-meio-a-pandemia-mostra-a-realidade-que-ninguem-ve-070014307.html</ext-link>. Acesso em: 6 jun. 2020.. Acesso em: 6 jun. 2020.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn02">
                <label>2</label>
                <p>Este artigo foi originalmente escrito em 2020.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn03">
                <label>3</label>
                <p>Ao se ativar a ferramenta do <italic>Google Street View</italic> pelo <italic>Google Earth</italic> na área compreendida pelo Complexo do Alemão, a referência datada das imagens no percurso corresponde ao período de outubro de 2013.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn04">
                <label>4</label>
                <p>Instagram do grupo Gabinete de Crise do Complexo do Alemão: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.instagram.com/gabinetealemao/">https://www.instagram.com/gabinetealemao/</ext-link>..</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn05">
                <label>5</label>
                <p>Dados do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos, da cidade do Rio de Janeiro, revelam que, numa escala de 0 a 1, o Índice de Desenvolvimento Social do Complexo do Alemão é 0,474. Esse indicador avalia o acesso a saneamento básico, qualidade habitacional, grau de escolaridade e disponibilidade de renda e sua composição toma como base as variáveis do Censo Demográfico 2000 do IBGE. Das 32 regiões administrativas, o Complexo do Alemão ocupa uma das últimas posições (30º), perdendo apenas para Rocinha (0,458) e Guaratiba (0,446). (IPP/PMRJ, 2008). Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://portalgeo.rio.rj.gov.br/estudoscariocas/download/2394_%C3%8Dndice%20de% 20Desenvolvimento%20Social_IDS.pdf">https://portalgeo.rio.rj.gov.br/estudoscariocas/download/2394_%C3%8Dndice%20de% 20Desenvolvimento%20Social_IDS.pdf</ext-link>. Acesso em: 8 dez. 2021.. Acesso em: 8 dez. 2021.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn06">
                <label>6</label>
                <p>Termo designado para indexar palavras-chave em aplicativos.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn07">
                <label>7</label>
                <p>Nuvem de palavras gerada pelo <italic>software</italic> gratuito <italic>Wordle</italic>. As configurações utilizadas para sua criação foram: <italic>Language – Leave words as Sppelled, Remove Numbers e Remove common words; Font – Telephoto; Layout – Mostly horizontal, Rounder edges e Maximum words (100); Color – Ghostly e A little variation</italic>. <italic>Link</italic> para acesso: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.wordle.net/">http://www.wordle.net/</ext-link>. Acesso em: 29 nov. 2020.. Acesso em: 29 nov. 2020.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn08">
                <label>8</label>
                <p>Reportagem disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/07/16/casos-e-mortes-por-coronavirus-no-brasil-em-16-de-julho-segundo-consorcio-de-veiculos-de-imprensa.ghtml">https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/07/16/casos-e-mortes-por-coronavirus-no-brasil-em-16-de-julho-segundo-consorcio-de-veiculos-de-imprensa.ghtml</ext-link>. Acesso em: 16 jul. 2020.. Acesso em: 16 jul. 2020.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn09">
                <label>9</label>
                <p>De acordo com a definição do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, “aglomerado subnormal é uma forma de ocupação irregular de terrenos de propriedade alheia – públicos ou privados – para fins de habitação em áreas urbanas e, em geral, caracterizados por um padrão urbanístico irregular, carência de serviços públicos essenciais e localização em áreas com restrição à ocupação. No Brasil, esses assentamentos irregulares são conhecidos por diversos nomes como favelas, invasões, grotas, baixadas, comunidades, vilas, ressacas, loteamentos irregulares, mocambos e palafitas, entre outros”. Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.ibge.gov.br/geociencias/organizacao-do-territorio/tipologias-do-territorio/15788-aglomerados-subnormais.html?=&amp;t=o-que-">https://www.ibge.gov.br/geociencias/organizacao-do-territorio/tipologias-do-territorio/15788-aglomerados-subnormais.html?=&amp;t=o-que-</ext-link>e. Acesso em: 30 nov. 2020.. Acesso em: 30 nov. 2020.</p>
            </fn>
        </fn-group>
        <ref-list>
            <title>REFERÊNCIAS</title>
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                    <year>2017</year>
                    <comment>Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://anpocs.com/index.php/encontros/papers/41-encontro-anual-da-anpocs/spg-4/spg10-4/10962-da-enografia-virtual-a-etnografia-online-deslocamentos-dos-estudos-qualitativos-em-rede-digital">http://anpocs.com/index.php/encontros/papers/41-encontro-anual-da-anpocs/spg-4/spg10-4/10962-da-enografia-virtual-a-etnografia-online-deslocamentos-dos-estudos-qualitativos-em-rede-digital</ext-link></comment>
                    <date-in-citation content-type="access-date">13 de nov. 2020</date-in-citation>
                </element-citation>
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                    <chapter-title>Virtual Ethnography: modes, varieties, affordances</chapter-title>
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                    <fpage>257</fpage>
                    <lpage>270</lpage>
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