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				<journal-title>Oculum Ensaios</journal-title>
				<abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Oculum Ens.</abbrev-journal-title>
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				<publisher-name>Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Programa de Pós-Graduação em Urbanismo</publisher-name>
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			<article-id pub-id-type="doi">10.24220/2318-0919v21e2024a7242</article-id>
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					<subject>ORIGINAL</subject>
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					<bold>Ruínas, a imaginação e o sublime: a Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição de Araçatuba</bold>
				</article-title>
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					<trans-title>
						<italic>Ruins, the imagination and the sublime: Fortress of Nossa Senhora da Conceição on the Araçatuba</italic>
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						<bold>
							<sup>1</sup>
						</bold>
					</xref>
					<role>pesquisa</role>
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						<surname>Daufenbach</surname>
						<given-names>Karine</given-names>
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						<bold>
							<sup>2</sup>
						</bold>
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					<xref ref-type="corresp" rid="c1"/>
					<role>redação</role>
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				<label>
					<bold>
						<sup>1</sup>
					</bold>
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				<institution content-type="original">Universidade Federal de Santa Catarina, Centro Tecnológico, Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo. Florianópolis, SC, Brasil.</institution>
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					<bold>
						<sup>2</sup>
					</bold>
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				<institution content-type="original">Universidade Federal de Santa Catarina, Centro Tecnológico, Departamento de Arquitetura e Urbanismo. Florianópolis, SC, Brasil.</institution>
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          Correspondência para/
					<italic>Correspondence to</italic>
					: K. Daufenbach. 
					<italic>E-mail</italic>
					: 
					<email>kdaufenbach@yahoo.com.br</email>
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					<p>
						<bold>Conflito de interesse</bold>
					</p>
					<p>Não há.</p>
				</fn>
				<fn fn-type="edited-by">
					<p>
						<bold>Editora</bold>
					</p>
					<p>Renata Baesso</p>
				</fn>
			</author-notes>
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				<day>22</day>
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				<year>2024</year>
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						Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença 
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						.
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			<abstract>
				<title>
					<bold>Resumo</bold>
				</title>
				<p>A pitoresca paisagem da Ilha de Araçatuba na barra sul da Ilha de Santa Catarina preserva as ruínas da fortificação militar do século XVIII, a Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição. O conjunto ilha e ruína se conserva em perfeita harmonia e simbiose com a topografia acentuada, vegetação rasteira e os matacões graníticos, num local muitas vezes indócil, tanto no acesso, quanto na permanência. Os remanescentes materiais e imateriais, na ruína dos prédios e nos fragmentos e lacunas dos relatos e documentos, são peças importantes para o que aqui se pretende, uma “reconstrução narrativa”, capaz de revelar muitas camadas sobre o mesmo objeto, e trazer à luz episódios, personagens, objetos e uma história igualmente fragmentária, e que aqui, também se dá pela via imaginativa. Entre as cenas e episódios escolhidos, se percebe e sugere alternância de humores, contrastes e a natureza voluntariosa do lugar, próprias do sentimento do sublime.</p>
			</abstract>
			<trans-abstract xml:lang="en">
				<title>
					<bold>
						<italic>Abstract</italic>
					</bold>
				</title>
				<p>
					<italic>The picturesque landscape of</italic>
					 Araçatuba 
					<italic>Island, on the southern channel of</italic>
					 Santa Catarina 
					<italic>Island, preserves the ruins of the 18th-century military fortress, the</italic>
					 Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição. 
					<italic>The island and the ruins are preserved in perfect harmony and symbiosis with the accentuated topography, undergrowth and granite boulders in a place that is often unpleasant both in terms of access and permanence. The material and immaterial remains in the ruins of the buildings and the fragments and gaps in the reports and documents are important pieces for what is intended here, a “narrative reconstruction” able to reveal many layers of the same object, bringing to light episodes, characters, objects and an equally fragmented history that takes place here also through the imagination. Among the selected scenes and episodes, one perceives the change of moods, contrasts, and the willful nature of the place, typical of the feeling of the sublime.</italic>
				</p>
			</trans-abstract>
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				<title>
					<bold>Palavras-chave:</bold>
				</title>
				<kwd>Fortificação</kwd>
				<kwd>Barra do Sul</kwd>
				<kwd>Pitoresco</kwd>
				<kwd>Ruína</kwd>
				<kwd>Sublime</kwd>
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				<title>
					<bold>
						<italic>Keywords:</italic>
					</bold>
				</title>
				<kwd>
					<italic>Fortification</italic>
				</kwd>
				<kwd>
					<italic>Barra do Sul</italic>
				</kwd>
				<kwd>
					<italic>Picturesque</italic>
				</kwd>
				<kwd>
					<italic>Ruin</italic>
				</kwd>
				<kwd>
					<italic>Sublime</italic>
				</kwd>
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	<body>
		<sec sec-type="intro">
			<title>
				<bold>Introdução</bold>
			</title>
			<p>Uma ilhota localizada na barra sul da Ilha de Santa Catarina, chamada Ilha de Araçatuba, abriga as ruínas da Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição. O conjunto chama a atenção pelo cenário arrebatador, mas também pelo emaranhado de camadas e fragmentos – geológico, construtivo, geográfico, social, histórico – que se anunciam e sobrepõem nos seus vários substratos.</p>
			<p>Da ocupação como elemento de defesa só restam as ruínas que acompanham harmoniosamente a acentuada topografia. Construída no século XVIII pelo engenheiro militar português José da Silva Paes, a fortaleza acumula, de fato, ruína sobre ruína desde pelo menos o século seguinte, e um passado fragmentário que não se deixa elucidar.</p>
			<p>Neste artigo pretende-se trazer à luz personagens, objetos, documentos e uma história igualmente fragmentária, interrompida por lacunas várias – físicas, documentais –, necessariamente incompleta, assim como evocado pela própria ruína, cuja “reconstrução” aqui também se dá pela via imaginativa. As iconografias, os relatórios e documentos produzidos a partir da construção e ocupação da fortaleza são capazes de fornecer dados sobre as edificações, condições de vida e possíveis causas de sua própria destruição. As cenas aqui escolhidas procuram evidenciar fios contrastantes que nos levam a um estado de prazer e desprazer simultâneo, à pergunta sobre a construção e destruição das ruínas, e à natureza voluntariosa do lugar. Os castigos do tempo, a hostilidade da navegação e as cenas violentas do passado habitado, as tentativas de ocupação que desafiaram a natureza, são fontes do horror e da grandiosidade do sublime. Para além dessa categoria estética, o cenário misterioso de presenças e ausências, perenidade e degradação, envolto em “causos” e relatos, instiga a imaginação de quem o observa.</p>
			<sec>
				<title>
					<bold>Paisagem no (e do) tempo</bold>
				</title>
				<p>
					A pitoresca ilhota de Araçatuba, onde brotam os matacões graníticos, com vegetação rasteira na topografia acentuada, é moldada por estruturas remanescentes de diversas construções que acompanham o relevo e conduzem à bateria circular, posicionada no cume da ilha. A face sul apresenta-se predominantemente em costão, reforçando a ideia do difícil acesso, do qual esse tipo arquitetônico apropria-se como fundamento. Já na face norte, por onde se dá a chegada, a paisagem ruinosa descortina-se (
					<xref alt="Figura 1" ref-type="fig" rid="f1">Figura 1</xref>
					). A visibilidade é uma das premissas quando se trata da tipologia de defesa; por meio de suas guaritas e baterias, tem-se vistas ampliadas de todo o entorno em eixos visuais estratégicos. E o mesmo acontece por terra; podemos visualizar a Fortaleza de Araçatuba por diversos pontos e perspectivas: da Praia e Farol de Naufragados, na Ilha de Santa Catarina, ou da Praia do Sonho e até do vale entre as Praias da Pinheira e da Guarda do Embaú, na parte continental. Posicionada nesse conjunto exuberante, a ilhota e seu entorno exibem unidade e uma experiência cênica e sensorial de grande beleza (
					<xref alt="Figura 2" ref-type="fig" rid="f2">Figura 2</xref>
					). A quem a observa à distância, tão tranquila, pode esquecer quão indócil é seu mar. E, na distância temporal dos acontecimentos, as cenas amenizam-se como que cobertas pela maresia. É preciso saber quando se aproximar dela, já que a única maneira de desembarcar é através do porto natural – o mesmo desde a época de sua ocupação –, e sempre à mercê do bom tempo, pois a combinação de correntes marítimas instáveis e, por vezes, ventos desfavoráveis, torna o embarque e o desembarque investidas extremamente volúveis e hostis.
				</p>
				<p>
					<fig id="f1">
						<label>
							<bold>Figura 1</bold>
						</label>
						<caption>
							<title> - Vista norte da Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição de Araçatuba, 2014.</title>
						</caption>
						<graphic mime-subtype="jpeg" mimetype="image" xlink:href="2318-0919-ro-21-e247242-f1.jpg"/>
						<attrib>
							Fonte: Foto de Roberto Tonera, disponível em 
							<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.fortalezas.org">www.fortalezas.org</ext-link>
							 e publicado mediante autorização.		
						</attrib>
					</fig>
				</p>
				<p>
					<fig id="f2">
						<label>
							<bold>Figura 2</bold>
						</label>
						<caption>
							<title> - Entorno da Fortaleza de Araçatuba. Farol de Naufragados em primeiro plano, Ilha de Araçatuba e, ao fundo, Ponta do Papagaio.</title>
						</caption>
						<graphic mime-subtype="jpeg" mimetype="image" xlink:href="2318-0919-ro-21-e247242-f2.jpg"/>
						<attrib>
							Fonte: Acervo das autoras, foto de Karine Daufenbach (2018).
						</attrib>
					</fig>
				</p>
				<p>O trajeto pela “reconstrução” narrativa da fortaleza começa por sua própria ruína, capaz de comunicar muitas histórias. Sobre a materialidade, a textura forte que ressalta no gramado apresenta a estrutura de “pedra e cal” na sua forma mais crua. Percebem-se adições em alvenaria de tijolos quando se completa a estrutura com platibandas, elemento modernizador implementado em uma das reformas do complexo. Há também detalhes em cantaria de pedra, reservados a locais simbólicos, como a entrada do portal de acesso à bateria alta. A arquitetura é, em geral, simples, com pureza de formas proveniente de seu caráter utilitário. Outros elementos ainda visíveis são os canhões posicionados na bateria circular ou espalhados pela ilha. O piso original, formado por lajotas cerâmicas, pode ser visto apenas na Casa da Palamenta; nas demais edificações, a vegetação já tomou suas estruturas. O passeio por entre os prédios arruinados proporciona diferentes visualizações do interior e exterior, contidas entre seus intervalos, no requadro antigo das esquadrias ou nas fissuras que moldam e direcionam o olhar.</p>
				<p>
					As pedras locais, em seu contraste de cor e forma, evidenciam tempos muito anteriores à ocupação social. Na composição da ilha predomina a presença da pedra de cor acinzentada, o granito. No entanto, as formações graníticas sofreram fissuras por onde escoou lava vulcânica, os chamados diques de diabásio (
					<xref alt="Figura 3" ref-type="fig" rid="f3">Figura 3</xref>
					). Identificamos os diques como as fendas onde surgem as pedras de coloração preta que cortam a ilha e que estão a contar essa história que nos mantêm intimamente relacionados à terra. Os dois tipos de pedra foram essenciais para a construção da própria fortaleza. Como se sabe, foram o meio construtivo do complexo e a solução econômica na obra. Nesse aspecto, retornemos um pouco para a história da formação do conjunto de defesa para a Ilha de Santa Catarina.
				</p>
				<p>
					<fig id="f3">
						<label>
							<bold>Figura 3</bold>
						</label>
						<caption>
							<title> - Vista aérea da Fortaleza de Araçatuba, 1999.</title>
						</caption>
						<graphic mime-subtype="jpeg" mimetype="image" xlink:href="2318-0919-ro-21-e247242-f3.jpg"/>
						<attrib>
							Fonte: Foto de Alberto L. Barckert, disponível em 
							<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.fortalezas.org">www.fortalezas.org</ext-link>
							 e publicado mediante autorização.
						</attrib>
					</fig>
				</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>
					<bold>A “Construção” das ruínas</bold>
				</title>
				<p>
					A Ilha de Santa Catarina sempre foi um porto importante para o abastecimento de viajantes que navegavam do Rio de Janeiro a Buenos Aires. A ocupação e proteção desse porto significava manter o poder territorial de Portugal no sul do Brasil e os interesses com o Rio da Prata. Desde 1709 já se falava na corte de Lisboa que era de suma importância que a Ilha de Santa Catarina continuasse sob domínio lusitano (Piazza, 
					<xref alt="1988" ref-type="bibr" rid="B17">1988</xref>
					, p. 123). Como plano de defesa a partir do início do século XVIII, ao engenheiro militar Brigadeiro José da Silva Paes (1679-1760), também governador da Capitania da Ilha de Santa Catarina, restou a importante tarefa de fortificá-la, procurando evitar ao máximo as despesas
					<sup>
						<xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref>
					</sup>
					 (Piazza, 
					<xref alt="1988" ref-type="bibr" rid="B17">1988</xref>
					, p. 133). Foram construídas três fortalezas na barra norte: Fortaleza de Santa Cruz de Anhatomirim (1739), de Santo Antônio de Ratones (1740) e de São José da Ponta Grossa (1740), cujo objetivo era criar um triângulo defensivo que impossibilitasse a entrada de inimigos. Para a estreita barra sul, apenas uma fortaleza se mostrava suficiente, e em 1742 iniciaram-se as obras da Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição (
					<xref alt="Figura 4" ref-type="fig" rid="f4">Figura 4</xref>
					). José de Souza Azevedo Pizarro e Araujo, o Monsenhor Pizarro, no livro “Memórias Históricas do Rio de Janeiro e das Provincias Annexas a Jurisdicção do Vice-Rei do Estado do Brasil”, a descreve ressaltando as grandes dificuldades do lugar. Nesse sentido, Araçatuba seria efetiva para sua própria tipologia; uma “verdadeira fortaleza”:
				</p>
				<p>
					<disp-quote>
						<p>
							Na barra do Sul, entr’o Pontal de Araçatuba, e a Ponta dos Naufragados, está uma Ilhota de pedras, onde construiu no anno 1742 o Governador Jozé da Silva Paes uma fortaleza, dedicando-a á Conceiçaõ da Santa Virgem. Pela sua situaçaõ, e inaccessibilidade, he ella verdadeiramente Fortaleza, e dominando a entrada da barra, domina tambem a praia de Arassatuba [sic]. Em pouca distancia de si tem duas ilhotas, que chamam dos Papagaios, inaccessiveis pela parte do mar, tanto por serem rodeadas de penedias, como por serem vistas pela Fortaleza, e pela parte de terra, por haver um baixo, por onde só canoas podem navegar. O porto he pessimo, e só á canoas dá entrada em tempo bom, o que raras vezes accontece, havendo para isso um pratico seguro. Por ser lavada do mar, não tem outras aguas senaõ as de duas nascentes salobras, o que se remediaria, fazendo-lhe uma boa cisterna 
						</p>
						<attrib>
							(Araujo, 
							<xref alt="1822" ref-type="bibr" rid="B2">1822</xref>
							, p. 267).
						</attrib>
					</disp-quote>
				</p>
				<p>
					São quatorze remanescentes dos edifícios nomeados de acordo com sua utilização: Armazém da Praia, Casa da Guarda, Casa dos Moços I, Casa dos Moços II, Cisterna, Palamenta, Quartel e Casa do Comandante, Casa da Farinha, Fonte, Paiol da Pólvora, Bateria Circular, Bateria Baixa e os molhes, estruturas que brotam da mesma pedra da ilhota, semelhantes a esculturas naturais (
					<xref alt="Figura 5" ref-type="fig" rid="f5">Figura 5</xref>
					). Mas diferentemente delas, nas ruínas a organização antrópica se ocupou da harmoniosa e decorosa implantação. E nesse sentido, não se pode deixar de mencionar o Brigadeiro Silva Paes e sua formação erudita.
				</p>
				<p>
					<fig id="f4">
						<label>
							<bold>Figura 4</bold>
						</label>
						<caption>
							<title> - Iconografia. Planta baixa e elevação da Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição de Araçatuba com identificação de seus edifícios. Cópia da iconografia de 1767 elaborada por D. Miguel de Blasco. Papel canson telado (52 cm x 41 cm).</title>
						</caption>
						<graphic mime-subtype="jpeg" mimetype="image" xlink:href="2318-0919-ro-21-e247242-f4.jpg"/>
						<attrib>
							Fonte: Acervo 
							<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.fortalezas.org">www.fortalezas.org</ext-link>
							 e publicado mediante autorização.
						</attrib>
					</fig>
				</p>
				<p>
					<fig id="f5">
						<label>
							<bold>Figura 5</bold>
						</label>
						<caption>
							<title> - Molhes, ruínas do Armazém da Praia e terraplenos da Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição de Araçatuba, 2014.</title>
						</caption>
						<graphic mime-subtype="jpeg" mimetype="image" xlink:href="2318-0919-ro-21-e247242-f5.jpg"/>
						<attrib>
							Fonte: Foto de Roberto Tonera, disponível em 
							<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.fortalezas.org">www.fortalezas.org</ext-link>
							 e publicado mediante autorização.
						</attrib>
					</fig>
				</p>
				<p>
					De fato, os engenheiros militares que atuaram nas novas colônias do século XVI até o início do XIX vinham de uma formação multifacetada, o que lhes permitiu atuar não apenas na produção arquitetônica militar, mas também arquiteturas civis e religiosas, em obras públicas, infraestrutura e no mapeamento territorial (Bueno, 
					<xref alt="2011a" ref-type="bibr" rid="B4">2011a</xref>
					). Além das fortificações, Silva Paes também produziu obras civis e religiosas na Ilha de Santa Catarina, como a Casa do Governo e a Igreja Matriz, que segundo Beatriz Bueno (
					<xref alt="2011b" ref-type="bibr" rid="B5">2011b</xref>
					, p. 264), são projetos de rigorosa disciplina geométrica, os quais reúnem “[...] todos os atributos da boa arquitetura de sua época: 
					<italic>ordem, disposição, simetria, euritmia, decoro e distribuição”</italic>
					. Ao discorrer sobre a Fortaleza de Anhatomirim, a historiadora comenta pontos que fazem desse projeto paradigmático e que podemos facilmente perceber também na pequena ilha de Araçatuba: uma”[...] perfeita integração de espaço construído com o sítio escolhido”, resultando na “simbiose com a paisagem”, disposta em terraplenos de diferentes cotas; muralhas poligonais descontínuas e um “[...] conjunto voltado para a terra [que] apresenta nítida intenção cenográfica” (
					<xref alt="Figura 6" ref-type="fig" rid="f6">Figura 6</xref>
					). Suas obras, civis, religiosas e militares, atestam para o senso estético apurado, correto emprego da métrica, rigorosa simetria e um bom manejo do vocabulário de matriz clássica (Bueno, 
					<xref alt="2011b" ref-type="bibr" rid="B5">2011b</xref>
					), características também percebidas na conformação dos próprios remanescentes arruinados.
				</p>
				<p>
					<fig id="f6">
						<label>
							<bold>Figura 6</bold>
						</label>
						<caption>
							<title> - Terrapleno de acesso às ruínas da Fortaleza; Armazém da praia à direita, Casa dos Moços I à esquerda e a Bateria Circular ao fundo, 2001.</title>
						</caption>
						<graphic mime-subtype="jpeg" mimetype="image" xlink:href="2318-0919-ro-21-e247242-f6.jpg"/>
						<attrib>
							Fonte: Foto de Alberto L. Barckert, disponível em 
							<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.fortalezas.org">www.fortalezas.org</ext-link>
							 e publicado mediante autorização.
						</attrib>
					</fig>
				</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>
					<bold>Fragmentos do Cotidiano</bold>
				</title>
				<p>
					Continuando o percurso, passamos para a investigação da vida de quem habitava esses locais zelosamente pensados e construídos. No artigo “Fragmentos do cotidiano das fortificações catarinenses”, Thaís Colaço (
					<xref alt="1994" ref-type="bibr" rid="B8">1994</xref>
					), a partir de parcos registros, revela episódios vivenciados nesses complexos de defesa. As fortalezas tinham como função o controle de entrada e saída de navios e sinalização, mas também foram utilizadas como pontos de isolamento para contenção de epidemias. Em diversas ocasiões, funcionaram como prisão para vários tipos de infratores, civis e militares. No contingente, é possível que alguns índios trabalhassem junto a militares de baixa patente, escravos e sentenciados. A autora conta que grande parte de quem ali servia era composta por “desclassificados sociais”, desertores que eram deportados e vinham servir na Ilha. As condições de vida e trabalho dos militares em serviço eram precárias, agravadas pelos constantes atrasos no soldo. Os soldados eram enviados para as freguesias próximas para que se ocupassem da pesca, agricultura e até criação de animais, a fim de garantir a sobrevivência. A situação em geral incitava à rebeldia, que era respondida com punição violenta:
				</p>
				<p>
					<disp-quote>
						<p>
							Um fato que merece ser evidenciado foi o que aconteceu na Fortaleza Nossa Senhora da Conceição de Araçatuba em 1839. Houve um amotinamento por parte dos soldados, que aliando-se aos rebeldes da Revolução Farroupilha, entregaram-lhes toda a munição e a fortaleza. Seguindo-se várias atitudes criminosas, assassinaram o Comandante Alferes Pedro Fernandes, após tê-lo conduzido para Laguna. [...] Todos os envolvidos foram condenados à pena de morte e carrinho (argola de ferro que se adaptava às pernas dos soldados por castigo) 
						</p>
						<attrib>
							(Colaço, 
							<xref alt="1994" ref-type="bibr" rid="B8">1994</xref>
							, p. 49).
						</attrib>
					</disp-quote>
				</p>
				<p>
					Outros registros, passados através da oralidade e transcritos por Corrêa e Corrêa (
					<xref alt="1984" ref-type="bibr" rid="B9">1984</xref>
					, p. 156), também fazem referência à violência da vida na Fortaleza de Araçatuba: “[...] os soldados que também não prestavam: eram nortistas criminosos e brigões, que mandavam, por castigo, para a Fortaleza. Mas o Comandante, por qualquer coisa, matava eles a pau.” Tratava-se, em geral, de uma vida hostil e precária na ilhota de terreno improdutivo e castigada pelas ondas e forte maresia. Relatos atestam a dificuldade de se chegar à ilha de Araçatuba, mas também sobre a dificuldade de se permanecer ali:
				</p>
				<p>
					<disp-quote>
						<p>
							A velha minha avó contava que tinham contado: ‘Uma vez, a ’maresia’ foi tão forte, com ondas tão altas, que batiam nas pedras, de modo que nenhum barco pôde chegar na ilha. Durante quinze dias, a ilha de Araçatuba ficou isolada, coisa que nunca tinha acontecido. A comida acabou; até a farinha, que se guardava em casa especial. A ilha não dava nada que se pudesse plantar’ 
						</p>
						<attrib>
							(Corrêa; Corrêa, 
							<xref alt="1984" ref-type="bibr" rid="B9">1984</xref>
							 p. 155).
						</attrib>
					</disp-quote>
				</p>
				<p>
					De volta aos vestígios materiais, é com igual assombro que neles encontramos, inversamente, indícios de um cotidiano de leveza e delicadeza. Por entre a rudeza das pedras empilhadas constata-se a presença de conchas, areia e restos cerâmicos combinados ao óleo de baleia como mistura ligante
					<sup>
						<xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref>
					</sup>
					; essa mistura de agregados, própria da construção à beira mar, é abundantemente encontrada na ilhota e faz aflorar a figura de um ilustre comandante do local. Francisco dos Santos Xavier (1739-1814), serviu como soldado por mais de trinta e dois anos em Santa Catarina, nove deles no comando da fortaleza. No tempo que permaneceu no litoral catarinense, o militar, também habilidoso artífice, desenvolveu delicados trabalhos ornamentais que misturavam conchas, penas e escamas, o que lhe valeram reconhecimento e o apelido de “Xavier das Conchas” (
					<xref alt="Figura 7" ref-type="fig" rid="f7">Figura 7</xref>
					). Recebeu o convite de Mestre Valentim para ornamentar os pavilhões do Passeio Público do Rio de Janeiro
					<sup>
						<xref ref-type="fn" rid="fn5">5</xref>
					</sup>
					. A portaria de 18 de outubro de 1787, emitida pelo vice-rei Luís de Vasconcelos, enaltece o talento de Xavier e o requisita para aquela importante obra, oferecendo-lhe licença remunerada de três meses enquanto se ocupasse do serviço solicitado (
					<xref alt="2005" ref-type="bibr" rid="B15">2005</xref>
					). E assim, em 1789, Xavier das Conchas e o artista e taxidermista catarinense, Francisco Xavier Cardoso Caldeira, conhecido como “Xavier dos Pássaros”, chegam à capital fluminense para executar as decorações, das quais nos restam somente algumas pinturas e relatos, e pavilhões completamente demolidos em 1817.
				</p>
				<p>
					<fig id="f7">
						<label>
							<bold>Figura 7</bold>
						</label>
						<caption>
							<title> - Oratório com escultura de Nossa Senhora da Conceição, técnica mista, autoria de Francisco dos Santos Xavier (Xavier das Conchas), século XVIII. Coleção Ladi Biezus.</title>
						</caption>
						<graphic mime-subtype="jpeg" mimetype="image" xlink:href="2318-0919-ro-21-e247242-f7.jpg"/>
						<attrib>
							Foto: Foto de Roberto Tonera (2017), disponível em 
							<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.fortalezas.org">www.fortalezas.org</ext-link>
							 e publicado mediante autorização.
						</attrib>
					</fig>
				</p>
				<p>
					No livro “Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro”, publicado entre 1862 e 1863, o romancista Joaquim Manuel de Macedo percorre a cidade conduzindo o leitor a diferentes cenários e situações. Conhecido cronista dos costumes cariocas, narra Mestre Valentim em negociações com Luís de Vasconcelos e diálogos com Xavier das Conchas diante das obras do Passeio Público. Apesar das semelhanças externas, internamente os pavilhões seriam decorados de modo bastante distinto; enquanto no pavilhão decorado por Xavier dos Pássaros o teto era composto por arabescos, palmas e flores, e os pássaros brasileiros representados com suas próprias penas, no pavilhão atribuído a Xavier das Conchas os ornamentos eram de outra natureza: “Nos cinco grandes quadros de teto as conchas substituíram as penas, e o fundo em vez de ser branco, tomava a cor azul. Nas sobreportas viam-se baixos-relevos de peixes dos nossos mares, feitos com as suas próprias peles e escamas” (
					<xref alt="2005" ref-type="bibr" rid="B15">2005</xref>
					, p. 107). Podemos encontrar obras de Xavier da Conchas no Museu do Oratório, em Ouro Preto (MG) e na Igreja de Nossa Senhora do Outeiro da Glória no Rio de Janeiro (Didoné; Makowiecky, 
					<xref alt="2014" ref-type="bibr" rid="B10">2014</xref>
					). A respeito dos pequenos oratórios de Ouro Preto, o museu os tem por peças eruditas, em estilo rococó, confeccionadas em madeira (entalhe, policromia, douramento), conchas (recorte, colagem), vidro (soprado), tecido (bordado), gesso (moldagem), produzidas entre o final do século XVIII e início do XIX. Em algumas delas, as pequenas conchas criam grandes guirlandas, buquês e volutas, com movimentação suave, estrutura elegante e leves torções. A delicadeza das peças produzidas pelo Comandante Xavier das Conchas se revela elemento pitoresco na “reconstrução” que estamos produzindo. Na diminuta sutileza, é capaz de amenizar (por ora) a intensidade e tensão de como viviam na fortaleza.
				</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>
					<bold>A “vocação” de Araçatuba</bold>
				</title>
				<p>
					Devido a diferentes necessidades utilitárias, o conjunto edificado sofreu diversas modificações (ampliações e aperfeiçoamentos) em suas instalações no decorrer da história, como é visto pelas iconografias
					<sup>
						<xref ref-type="fn" rid="fn6">6</xref>
					</sup>
					, chegando a apresentar fases de precariedade na conservação, já desde pelo menos o século XVIII. Seja por incúria ou dificuldade natural de conservação num sítio tão inóspito, a fortaleza parece apresentar certa “vocação” à ruína. Atualmente, ela é a única do conjunto inicial pensado por Silva Paes que ainda se encontra arruinada e, didaticamente, apresenta a estética que foi comum a todas depois do abandono (
					<xref alt="Figura 8" ref-type="fig" rid="f8">Figura 8</xref>
					).
				</p>
				<p>
					<fig id="f8">
						<label>
							<bold>Figura 8</bold>
						</label>
						<caption>
							<title> - Vista interna do Quartel da Tropa, 2014.</title>
						</caption>
						<graphic mime-subtype="jpeg" mimetype="image" xlink:href="2318-0919-ro-21-e247242-f8.jpg"/>
						<attrib>
							Fonte: Foto de Roberto Tonera, disponível em 
							<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.fortalezas.org">www.fortalezas.org</ext-link>
							 e publicado mediante autorização.
						</attrib>
					</fig>
				</p>
				<p>
					Oswaldo Cabral, em seu livro “As defesas da Ilha de Santa Catarina no Brasil-colônia”, publicado em 1972, assim resume o estado em que se encontravam as fortificações: Santa Cruz (Anhatomirim) e Nossa Senhora da Conceição eram consideradas ruínas, já as fortalezas de São José e Santo Antônio, ruínas totais (Cabral, 
					<xref alt="1972" ref-type="bibr" rid="B7">1972</xref>
					). Diferentemente de Araçatuba, as três primeiras fortalezas do sistema defensivo original alcançaram o tombamento federal já em 1938 e passaram por restaurações em distintas épocas. A primeira delas, nos anos 1970, foi a Fortaleza de Anhatomirim, reconstruída numa premissa que prezava o “saber fazer” colonial. No entanto, não é possível para o visitante “ler” o estado em que foi encontrada. Já nas Fortalezas de São José e Santo Antônio, as ações de restauro ocorreram na década de 1990 e, apesar de apresentarem intervenções consideráveis, houve a preocupação com a estratificação entre o novo e o antigo. O tombamento da Fortaleza de Araçatuba só aconteceu em 1980
					<sup>
						<xref ref-type="fn" rid="fn7">7</xref>
					</sup>
					; nessa época, havia o plano de recuperar a “guardiã do sul”. Em 1987, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) realizou levantamento gráfico cadastral dos edifícios arruinados, que receberam escoramento emergencial em 1991. Uma década mais tarde, a fortaleza passou pela tutela temporária da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), quando ocorreu a pesquisa arqueológica parcial, elaboração dos projetos de restauro e do atracadouro
					<sup>
						<xref ref-type="fn" rid="fn8">8</xref>
					</sup>
					, essencial para viabilizar as obras de restauro e, então, a visitação. Mas nada disso aconteceu. Durante a primeira fase da implantação da estrutura do trapiche, em agosto de 2002, um incidente com fortes ventos e violenta ressaca destruiu completamente o equipamento flutuante que se preparava para iniciar o estaqueamento (
					<xref alt="Figura 9" ref-type="fig" rid="f9">Figura 9</xref>
					). O dramático episódio acarretou a inviabilidade das obras, tanto do atracadouro como do restauro, assim como a necessidade de devolução dos recursos públicos, resultando no interrompimento dos trabalhos (Banco de Dados Internacional sobre Fortificações, [
					<xref alt="20--?" ref-type="bibr" rid="B11">20--?</xref>]).
				</p>
				<p>
					Neste ponto o leitor deve ter percebido que a toponímia “Naufragados” é um tanto sugestiva para as condições de navegabilidade do lugar. Ela advém dos naufrágios históricos ali ocorridos. De alguns constam apenas relatos, entre eles, de uma das caravelas da expedição de Juan Dias de Solis em abril de 1516, da frota espanhola de D. Rodrigo de Acuña em 1525, de uma nau capitânia da expedição de Caboto em 1526, e, ainda, de duas embarcações conduzindo açorianos rumo ao Rio Grande do Sul em 1753 (Morari, 
					<xref alt="2009" ref-type="bibr" rid="B16">2009</xref>
					). O episódio do atracadouro demonstra, uma vez mais, que a natureza do mar da barra sul não deve ser subestimada. Com efeito, trata-se do poder grandioso de uma natureza indômita que causa impotência, ou antes, de um sentimento dual que também causa arrebatamento e êxtase, fascina e causa horror, e desperta em nós o ímpeto pela autopreservação.
				</p>
				<p>
					<fig id="f9">
						<label>
							<bold>Figura 9</bold>
						</label>
						<caption>
							<title> - Remanescentes das estruturas e equipamentos de construção do atracadouro que chegaram à Praia do Sonho, em Palhoça, depois das fortes ressacas, 2002.</title>
						</caption>
						<graphic mime-subtype="jpeg" mimetype="image" xlink:href="2318-0919-ro-21-e247242-f9.jpg"/>
						<attrib>
							Fonte: Foto de Construtora e Incorporadora Confiança Ltda, disponível em 
							<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.fortalezas.org">www.fortalezas.org</ext-link>
							. e publicado mediante autorização.
						</attrib>
					</fig>
				</p>
			</sec>
			<sec>
				<title>
					<bold>A imaginação e o sublime</bold>
				</title>
				<p>
					Nos vestígios da fortaleza de Araçatuba, as paredes de pedra surgem, então, cobertas de argamassa fina de cal e areia para acabamento. Em alguns lugares, ainda podemos perceber a camada pictórica de cal e óxidos, na cor ocre, comum ao uso institucional e militar dentro do universo luso-brasileiro. E, na intenção de preencher as paredes lacunosas, só nos resta a imaterialidade da história, mas também o poder sugestivo da imaginação, como nos lembra Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) em “Sobre a arquitetura alemã”. Não era a primeira vez que a arquitetura lhe permitiu experienciar sentimentos tão sublimes
					<sup>
						<xref ref-type="fn" rid="fn9">9</xref>
					</sup>
					. Na ocasião, publicada em 1823, Goethe em visita à Catedral de Colônia, pôde acompanhar as obras de restauro das ruínas góticas, conferir as plantas antigas e o projeto em andamento. Tomado por grande emoção, ele escreve:
				</p>
				<p>
					<disp-quote>
						<p>
							Não quero negar que a visão externa da catedral de Colônia suscitou em mim uma certa apreensão que eu não saberia expressar em palavras. Se uma importante ruína possui algo de digno, intuímos e vemos o conflito entre uma digna obra humana e o tempo silencioso e potente, que não respeita nada, onde justamente o inacabamento nos recorda a incapacidade humana tão logo pretende construir algo gigantesco 
						</p>
						<attrib>
							(Goethe, 
							<xref alt="2021" ref-type="bibr" rid="B12">2021</xref>
							, p. 241).
						</attrib>
					</disp-quote>
				</p>
				<p>
					Ao sentimento vivido pelo poeta alemão, o filósofo setecentista Edmund Burke (
					<xref alt="2021" ref-type="bibr" rid="B6">2021</xref>
					, p. 83) completa que os esboços com grau de “inacabamento” e infinitude causariam uma sensação agradável, pois a imaginação busca a promessa de algo para além do que é presentificado pelos sentidos.
				</p>
				<p>
					O inacabado das ruínas da Fortaleza de Araçatuba torna-se, assim, um delicioso território para a imaginação. Jonathan Hill (
					<xref alt="2019" ref-type="bibr" rid="B13">2019</xref>
					) em seu livro “
					<italic>The Architecture of Ruins: Designs on the Past, Present and Future</italic>
					” traz um apanhado de bibliografias notáveis, como de Goethe, Burke e tantos outros, que fazem referência à ruína e revelam os efeitos dessa incompletude em nossos sentidos. As formas incompletas, fraturadas e fragmentadas, expandem o potencial alegórico e metafórico da arquitetura, estimulando a imaginação. Uma obra arquitetônica, artística ou literária quando inacabada, literalmente e na imaginação, demanda e focaliza uma atenção na criatividade de espectadores, leitores e usuários, e também dos próprios artistas, escritores e arquitetos. A ruína é um indicativo de continuidade, de mudança, de atemporalidade e oportunidade. E, como forma de contemplar o tempo:
				</p>
				<p>
					<disp-quote>
						<p>
							[...] a ruína é uma imagem tanto do futuro quanto do passado, estimulando-nos a imaginar não apenas o que está perdido, mas também o que ainda está por acontecer. Frequentemente um precursor da mudança, uma ruína oferece uma lembrança do antigo e uma promessa do novo. Em vez de confinadas ao passado, as ideias e formas descobertas em uma ruína podem ser vistas como incompletas e, portanto, prontas para serem revividas, enriquecidas e expandidas no presente. Ruínas são como canteiros de obras, cheias de potencial 
						</p>
						<attrib>
							(Hill, 
							<xref alt="2019" ref-type="bibr" rid="B13">2019</xref>
							, p. 294, tradução nossa).
						</attrib>
					</disp-quote>
				</p>
				<p>
					É também de um imaginário ligado às ruínas de que nos fala Andreas Huyssen (
					<xref alt="2014" ref-type="bibr" rid="B14">2014</xref>
					), como característico e constituinte mesmo da modernidade, conectando-o a uma nostalgia do passado, uma “utopia às avessas”, em que necessariamente estão associadas a temporalidade e a espacialidade: “A ruína arquitetônica é um exemplo da combinação indissolúvel de desejos espaciais e temporais que desencadeiam a nostalgia. No corpo da ruína, o passado está presente nos resíduos, mas ao mesmo tempo não está mais acessível, o que faz da ruína um desencadeante especialmente poderoso da nostalgia” (Huyssen, 
					<xref alt="2014" ref-type="bibr" rid="B14">2014</xref>
					, p. 91).
				</p>
				<p>
					Mas é principalmente da débil obra humana frente à natureza potente que nos lembra Goethe nos dizeres acima. Na fortaleza de Araçatuba, os sentimentos de dualidade, grandiosidade, horror e tragédia simultâneos, estão intimamente conectados à sociedade e à natureza do lugar, parecendo-lhes mesmo um traço distintivo e componente indissociável, até a atualidade, como evidenciam as cenas aqui presentes. Elas são marcadas por embates antagônicos em um cenário de destoante beleza (da natureza e do engenho humano), mas também pela violência do cotidiano militar e dessa mesma natureza (
					<xref alt="Figura 10" ref-type="fig" rid="f10">Figura 10</xref>
					), as condições de vida aviltantes, da dificuldade do acesso, mas também da permanência, de presenças e ausências, como a própria ruína “materializa”.
				</p>
				<p>Na dialética de Araçatuba, tem-se ruína e uma reconstrução imaginária, força contrastada com fragilidade, permanência e perenidade tomada por transitoriedade, fugacidade e efemeridade. O construído sempre encontrando o esquecimento e o abandono, obra humana erudita tomada pela natureza selvagem, bem ao gosto da poética do romantismo, que privilegia a estética do pitoresco e do sublime. Araçatuba evoca a típica ruína de matriz clássica sendo “sorvida” pela natureza em seu poder implacável, que a tudo consome. O desgaste e a decadência e o inelutável retorno à natureza atestam a vulnerabilidade da obra humana diante dessa mesma natureza e da irreversibilidade do tempo.</p>
				<p>
					<fig id="f10">
						<label>
							<bold>Figura 10</bold>
						</label>
						<caption>
							<title> - Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição de Araçatuba (déc.1980).</title>
						</caption>
						<graphic mime-subtype="jpeg" mimetype="image" xlink:href="2318-0919-ro-21-e247242-f10.jpg"/>
						<attrib>
							Fonte: Foto de Tarcísio Mattos, disponível em 
							<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://www.fortalezas.org">www.fortalezas.org</ext-link>
							 e publicado mediante autorização.
						</attrib>
					</fig>
				</p>
				<p>
					Para Giulio Carlo Argan (
					<xref alt="1992" ref-type="bibr" rid="B3">1992</xref>
					, p. 201), “A poética do ‘sublime’ contrapõe ao homem uma natureza poderosa e diversa, em que nada é variedade e harmonia, tudo é antagonismo, choque e explosão de forças contrárias, tragédia”. É essa mesma força do sublime que desperta em nós os sentidos de autopreservação. Segundo Burke (
					<xref alt="2021" ref-type="bibr" rid="B6">2021</xref>
					, p. 50), somente quando nos vemos seguros podemos vivenciar o deleite: “[...] sensação que acompanha a remoção da dor ou do perigo”. Uma dor que não é mais negativa e, ainda assim, não é totalmente prazerosa ou satisfatória, mas tem qualidades grandiosas. Para o filósofo, o assombro “é o efeito do sublime em seu mais alto grau.”
				</p>
				<p>Por fim, na intenção de promover mais algumas aproximações incompletas, contrastantes e estimulantes, num estrato que não é mais do campo arquitetônico material, mas sim fragmentos literários (imaterial) da vida social, os quais fornecem, ilustrativamente, enquadramentos pitorescos, sublimes e idealizados de uma permanência plural e excêntrica, complementares na perspectiva singular de Araçatuba, trazemos uma notícia veiculada no jornal “República”, de 23 de maio de 1896, intitulada “Bibliotheca militar”. Por iniciativa do comandante coronel Moreira Cesar e do tenente-coronel José Carlos Pinto Junior, a notícia informa que será fundada uma biblioteca na Fortaleza de Araçatuba com obras literárias, científicas e de cunho militar. Os motivos são igualmente interessantes:</p>
				<p>
					<disp-quote>
						<p>Estando distanciada dessa cidade aquella fortaleza, o seu pessoal encontrará na leitura dessas obras uma distração, a par da instrucção que lhe possa advir, amenizando assim a monotonia que assalta o espírito dos que se acham em lugares afastados dos centros ou pontos populosos.</p>
					</disp-quote>
				</p>
				<p>
					Apresentado o projeto, os militares pedem doações de “um ou mais volumes” de obras, “conforme dictar o seu patriotismo”. A biblioteca, esperava-se, seria responsável pelo engrandecimento intelectual e moral do agrupamento. E então, “Applaudindo tão proveitoso melhoramento, fazemos votos para que se realize” (República, 
					<xref alt="1896" ref-type="bibr" rid="B18">1896</xref>
					). Se realmente foi construída, não foram encontrados registros que o provem. Talvez tenha ficado na imaginação dos coronéis e, agora, na nossa, depois que soubemos da intenção.
				</p>
				<p>Noutros fragmentos, algumas passagens perpetuadas na oralidade sugerem a animosidade, o caráter anímico e voluntarioso do lugar, e reforçam os mistérios que rondam a pequena ilha, uma tranquilidade no limite da violência:</p>
				<p>
					<disp-quote>
						<p>Quando o comandante estava bom, resolvia fazer uma festa. Convidava todas as moças das Caieiras e do Ribeirão da Ilha para um baile na Fortaleza.</p>
						<p>A gente, que não tinha festa, gostava mesmo daquilo.</p>
						<p>Moças se arrumavam e se tocavam para a fortaleza.</p>
						<p>Desembarcavam no trapiche — que antigamente existia — e subiam a rampa que vai até o portão.</p>
						<p>A sentinela da torrinha deixava todos passarem para a dança.</p>
						<p>O Comandante avisava os soldados: ‘Quem fizer qualquer coisa errada, apanha até morrer!...’ e o baile ficava calmo e ninguém brigava apesar da cachaça.</p>
						<p>
							— Naquele fim de mundo, como devia ser bom uma festa! O pessoal bailava e sentava nos canhões que nunca deram tiros, por que não precisaram, pois ninguém se animava atravessar esta barra estreitinha, 
							<italic>sem licença</italic>
							 da Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição da Barra do Sul de Araçatuba 
						</p>
						<attrib>
							(Corrêa; Corrêa, 
							<xref alt="1984" ref-type="bibr" rid="B9">1984</xref>
							, p. 156, grifo próprio).
						</attrib>
					</disp-quote>
				</p>
			</sec>
		</sec>
	</body>
	<back>
		<ref-list>
			<title>
				<bold>Referências</bold>
			</title>
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					. Acesso em: 7 abr. 2022.
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				<element-citation publication-type="journal">
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					<article-title>Goethe diante de duas catedrais góticas</article-title>
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				<mixed-citation>Bueno, B. P. S. Desenho e Desígnio: o Brasil dos engenheiros militares (1500-1822). São Paulo: Edusp: Fapesp, 2011b.</mixed-citation>
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					<source>Desenho e Desígnio: o Brasil dos engenheiros militares (1500-1822)</source>
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					<publisher-name>Edusp: Fapesp</publisher-name>
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				<mixed-citation>Burke, E. Investigação filosófica sobre a origem de nossas ideias do sublime e da beleza. Tradução Daniel Moreira Miranda. São Paulo: Edipro, 2021.</mixed-citation>
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					<source>As defesas da Ilha de Santa Catarina no Brasil-colônia</source>
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					<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://hdl.handle.net/20.500.11959/brapci/13753">http://hdl.handle.net/20.500.11959/brapci/13753</ext-link>
					. Acesso em: 7 abr. 2022.
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					. Acesso em: 7 abr. 2022.
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					<article-title>Passeio público do Rio de Janeiro e uma história que pode ser revista: os catarinenses Xavier das Conchas e Xavier dos Pássaros</article-title>
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					<comment>Disponível em: 
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					<fpage>61</fpage>
					<lpage>72</lpage>
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					Banco de Dados Internacional sobre Fortificações. Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição de Araçatuba. Fortalezas.org, [20--?] Disponível em: 
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					. Acesso em: 7 abr. 2022.
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						<collab>Banco de Dados Internacional sobre Fortificações</collab>
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					<article-title>Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição de Araçatuba</article-title>
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					<comment>Disponível em: 
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			<ref id="B12">
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					<source>Escritos sobre arte. Tradução Marco Aurélio Werle</source>
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					<source>The Architecture of ruins: designs on the past, present and future</source>
					<publisher-name>Routledge</publisher-name>
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					<source>Culturas do passado-presente: modernismos, artes visuais, políticas da memória</source>
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			<ref id="B15">
				<mixed-citation>Macedo, J. M. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005. v. 42.</mixed-citation>
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					<source>Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro</source>
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							<surname>Morari</surname>
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					<comment content-type="degree">Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo)</comment>
					<source>A paisagem da praia dos Naufragados da Barra do Sul, Florianópolis, SC segundo a percepção dos moradores: uma abordagem etnográfica. 2009</source>
					<publisher-name>Universidade Federal de Santa Catarina</publisher-name>
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					<source>O Brigadeiro José da Silva Paes: estruturador do Brasil meridional</source>
					<publisher-name>Editora da UFSC</publisher-name>
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					<year iso-8601-date="1988">1988</year>
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				<mixed-citation>República, n. 114, ano VII, Florianópolis, 23 de maio de 1896.</mixed-citation>
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					<source>República</source>
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					<issue>114</issue>
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				<mixed-citation>Uchôa, C. E. Fortalezas Catarinenses: a estória contada pelo povo. Florianópolis: Editora da UFSC, 1992.</mixed-citation>
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							<surname>Uchôa</surname>
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					<source>Fortalezas Catarinenses: a estória contada pelo povo</source>
					<publisher-name>Editora da UFSC</publisher-name>
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		<fn-group>
			<fn fn-type="financial-disclosure">
				<p>
					<bold>
						Apoio/
						<italic>Support</italic>
					</bold>
				</p>
				<p>Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes); Programa de Demanda Social (DS) — Processo nº 88887.757466/2022-00, Bolsa Mestrado.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other">
				<p>
					<bold>
						Como citar este artigo/
						<italic>How to cite this article</italic>
						:
					</bold>
					 Tuyama, C.; Daufenbach, K. Ruínas, a imaginação e o sublime: a Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição de Araçatuba. 
					<italic>Oculum Ensaios</italic>
					, v. 21, e247242, 2024. 
					<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://doi.org/10.24220/2318-0919v21e2024a7242">https://doi.org/10.24220/2318-0919v21e2024a7242</ext-link>
				</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn3">
				<label>
					<bold>
						<sup>3</sup>
					</bold>
				</label>
				<p>
					Em cartas, Silva Paes descreve os trabalhos na Ilha de Santa Catarina e as dificuldades de se habilitar o terreno para a construção. A exemplo do que havia feito na Fortaleza de Santo Antônio na Ilha de Ratones, escreve que utiliza pedras do próprio local para a construção, revestindo-as como indicado nos “perfis”. Com isso, poderia garantir a economia (Piazza, 
					<xref alt="1988" ref-type="bibr" rid="B17">1988</xref>
					, p. 133).
				</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn4">
				<label>
					<bold>
						<sup>4</sup>
					</bold>
				</label>
				<p>
					Apesar de não constar em registros documentais, a utilização de óleo de baleia nas construções é muito difundida na oralidade. E há grande possibilidade do uso nas fortalezas, evidenciando a tradição das armações e pesca da baleia no litoral catarinense, meio de extração de óleo tradicionalmente usado como combustível para iluminação (Uchôa, 
					<xref alt="1992" ref-type="bibr" rid="B19">1992</xref>
					, p. 41).
				</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn5">
				<label>
					<bold>
						<sup>5</sup>
					</bold>
				</label>
				<p>O Passeio Público, primeiro jardim público da cidade do Rio de Janeiro e do país, teve sua construção entre 1779 e 1783 durante a administração do vice-rei Luís de Vasconcelos.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn6">
				<label>
					<bold>
						<sup>6</sup>
					</bold>
				</label>
				<p>Quanto às iconografias conhecidas da Fortaleza de Araçatuba, são atribuídas autoria a, respectivamente: José Custódio de Sá e Faria (1764), Miguel de Blasco (1767), autor desconhecido (1767-1777) e Alferes José Correia Rangel (1786).</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn7">
				<label>
					<bold>
						<sup>7</sup>
					</bold>
				</label>
				<p>Foi rerratificado em 2012 e passou a contemplar a poligonal que, além da fortaleza, inclui o Forte Marechal Moura, o Farol de Naufragados, e a “paisagem envoltória” composta pelas ilhas do Papagaio Grande e Pequeno, da Ponta e da Praia de Naufragados, da Ponta do Frade, bem como o acervo de artilharia de ambos os fortes.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn8">
				<label>
					<bold>
						<sup>8</sup>
					</bold>
				</label>
				<p>O projeto de restauro foi elaborado por uma equipe da UFSC e pelos arquitetos Emerson da Silva, Marco Aurélio Bissani, Dácio J. Medeiros e o engenheiro Gian Carlo Sganzerla, datado de novembro de 2000. O projeto do atracadouro também é da UFSC, com base no projeto estrutural da empresa Stabile Ltda dos anos de 2001 e 2002. A pesquisa arqueológica teve a coordenação da arqueóloga Maria Madalena Velho do Amaral e ocorreu entre 2000 e 2001.</p>
			</fn>
			<fn fn-type="other" id="fn9">
				<label>
					<bold>
						<sup>9</sup>
					</bold>
				</label>
				<p>
					Goethe escreveu em 1772 o primeiro ensaio “Sobre a arquitetura alemã” (do original “
					<italic>Von deutscher Baukunst”</italic>
					), relatando a visita à Catedral de Estrasburgo. Seu reconhecimento e valorização da arquitetura gótica teve grande repercussão, podendo ser considerado uma das principais causas do renascimento gótico na Alemanha (Arraes, 
					<xref alt="2020" ref-type="bibr" rid="B1">2020</xref>
					).
				</p>
			</fn>
		</fn-group>
	</back>
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