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                <article-title>Kant: os sonhos de um visionário e o mundo dos espíritos</article-title>
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            <author-notes>
                <corresp id="c01">Correspondência para/<italic>Correspondence to</italic>: E. GONDIM. E-mail: <email>ufpi@ufpi.edu.br</email>.</corresp>
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                    <p>Editores responsáveis: Breno Martins Campos, Ceci Maria Costa Baptista Mariani.</p>
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                    <p>Conflito de interesses: não há.</p>
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                    <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (<italic>Open Access</italic>) sob a licença <italic>Creative Commons Attribution</italic>, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.</license-p>
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            <abstract>
                <title>Resumo</title>
                <p>Nos Sonhos de um <italic>Visionário Explicados pela Metafísica</italic>, Kant faz críticas à especulação em nome da experiência e critica o conhecimento científico em nome da moral. Ele afirma que a causa, o efeito e a substância são relações fundamentais que não se pode captar nem intuir. Não é dada à razão capacidade para conhecer tais relações fundamentais.</p>
            </abstract>
            <trans-abstract xml:lang="en">
                <title>Abstract</title>
                <p>In Dreams of a Visionary Explained by Metaphysics, Kant criticizes speculation in the name of experience scientific knowledge in the name of morality. He affirms that the cause, the effect, and substance are fundamental relationships that cannot be grasped or intuited. Reason is not given the capacity to know such fundamental relationships.</p>
            </trans-abstract>
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                <title>Palavras-chave</title>
                <kwd>Espírito</kwd>
                <kwd>Experiência</kwd>
                <kwd>Inteligível</kwd>
                <kwd>Metafísica</kwd>
                <kwd>Sonhos</kwd>
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                <title>Keywords</title>
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        <sec sec-type="intro">
            <title>Introdução</title>
            <p>No livro <italic>Sonhos de um Visionário Explicados pelos Sonhos da Metafísica</italic>, Kant se permite fazer suposições sobre o mundo dos espíritos afirmando a dupla participação da consciência humana no mundo dos espíritos e no mundo corpóreo, falando sobre a questão da exigência ética e que a razão só alcança as coisas que se pode comparar segundo a identidade e a contradição.</p>
            <p>Desse modo, no racionalismo, a metafísica fundamenta a ética e, a partir de Kant, a metafísica não é possível como ciência; porém, a ética se auto sustenta, inclusive, além de sustentar a si mesma, ela abre espaço para que se fundamente algum tipo de conhecimento metafísico.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>A ideia de mundo inteligível</title>
            <p>Kant inicia o capítulo II dos Sonhos de um <italic>Visionário Explicados pelos Sonhos da Metafísica</italic> observando que os fenômenos da matéria inerte têm uma explicação física e mecânica. Porém, tais explicações nem sempre são possíveis. Existem seres diferentes dos que são tratados sob as leis mecânicas. Daí vem a suposição de seres imateriais, regidos por leis pneumáticas e, quando ligados a um corpo, por leis orgânicas. Este mundo imaterial engloba as almas e os espíritos. Os seres imateriais existem por si só, por este motivo são substâncias. Contudo, em relação ao conceito da substância espiritual, o que se tem é somente uma suposição. Mas será impossível obter qualquer observação real e geralmente admitida? Kant, então, invoca, como resposta para isto, a moralidade.</p>
            <p>Os seres imateriais formam um grande todo, relacionando-se entre si, constituindo, assim, um mundo imaterial. Nele existe uma gradação de seres que vai desde as fases mais simples da vida até a autoconsciência. Sendo assim impossível demarcar com segurança quais deles mais alcançam a vida e quais deles mais se aproximam da ausência de vida. O mundo imaterial engloba todas as inteligências criadas, algumas unidas à matéria, formando uma pessoa, outras não. Engloba, também, todos os gêneros de animais e todos os princípios de vida que estão na natureza.</p>
            <p>Se admitir que existe um mundo imaterial composto de seres de um tipo diferente, como alguém pode afirmar que os seres imateriais só poderiam se relacionar entre si através de seres corpóreos? O razoável seria eles relacionarem-se diretamente entre si, e não precisarem de algo diferente deles mesmos para existirem, pois eles são substâncias e, como tais, não requerem nada para fundar as suas existências. Poder-se-ia, pois, supor que os seres imateriais de qualquer espécie não dependeriam das condições de espaço nem de tempo e que se encontrariam em comunidade direta. Pelo contrário, nas coisas do mundo visível, as distâncias e as épocas impedem que se forme uma verdadeira comunidade entre os seres (<xref ref-type="bibr" rid="B05">Kant, 1987</xref>).</p>
            <p>Pode-se perceber que a ideia de um mundo inteligível é pertinente para melhor pensarmos em um estado dos fins ou em um mundo moral:</p>
            <p><disp-quote>
                    <p>De resto a ideia de um mundo inteligível puro, como um conjunto de todas as inteligências, ao qual pertencemos nós mesmos como seres racionais (posto que, por outro lado, sejamos ao mesmo tempo membros do mundo sensível), continua a ser uma ideia utilizável e lícita em vista da crença racional, ainda que todo o saber acabe na fronteira deste mundo, para por meio do magnífico ideal de um reino universal dos fins em si mesmos (dos seres racionais), ao qual podemos pertencer como membros logo que nos conduzamos cuidadosamente segundo máximas da liberdade como se elas fossem leis da natureza, produzir em nós um vivo interesse pela lei moral</p>
                    <attrib>(<xref ref-type="bibr" rid="B05">Kant, 1987</xref>, p. 116).</attrib>
                </disp-quote></p>
            <p>Suponha-se que a alma humana já nesta vida presente, participe dos dois mundos: o espiritual e o material, e, por este motivo, encontra-se em uma dupla disposição: uma no plano fenomênico, ligada ao mundo material e outra no plano noumênico, onde recebe e reenvia as influências das naturezas imateriais, ou seja, ela acha-se em comunidade recíproca com o mundo dos espíritos.</p>
            <p>Porém, enquanto está unida a um corpo, ela não é consciente desta influência. As naturezas espirituais puras, por sua vez, também não têm uma impressão sensível consciente do mundo dos corpos, dado que elas não estão unidas a nenhuma parte da matéria. No entanto, por serem da mesma natureza das almas, elas as influenciam.</p>
            <p>Logo, a alma encontra-se em relação recíproca com todas as naturezas espirituais, embora, enquanto ligada a um corpo, ela não tenha consciência disto. As representações do mundo corporal não são transmitidas ao mundo espiritual e os conceitos dos seres espirituais, por sua vez, não podem ser intuídos na clara consciência do homem, pelo fato dele ser algo corpóreo. Trata-se, pois, de duas espécies absolutamente heterogêneas de ideias. Dessa forma, nos <italic>Sonhos de um Visionário Explicados pelos Sonhos da Metafísica</italic>, Kant elabora os primeiros rudimentos para diferenciar o mundo sensível do mundo inteligível, fato que vai culminar com a publicação da Crítica da Razão Pura, talvez o texto mais importante do pensamento kantiano.</p>
            <p>Assim sendo, a organização sistemática do mundo dos espíritos só pode ser suposta com certa probabilidade, dado que o conceito de natureza espiritual em geral é hipotético. Mas, será que podemos supô-la a partir de observações reais e admitidas? A experiência invocada por Kant é aquela do sentimento moral. Sendo assim, a comunicação dos espíritos revela-se como um vínculo universal da razão independentemente das relações sensíveis, consentindo, portanto, ao filósofo, uma pontualização do princípio sob o qual se pode fundar a moral. Conforme isso, Kant afirma a dupla participação da consciência humana no mundo dos espíritos e no mundo corpóreo, onde o espírito liberto da limitada representação sensível, pode coligir em uma intuição imaterial a representação da própria alma e conhecer verdadeiramente o seu destino em relação à dependência da razão universal.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>O mundo inteligível e a exigência ética</title>
            <p>Kant, nos <italic>Sonhos de um Visionário Explicados pelos Sonhos da Metafísica</italic>, afirma que existem forças que movem a afetividade humana: umas que residem dentro do homem e outras que residem fora dele. Todavia, a força mais forte é a que faz convergir a nossa tendência para algo fora de nós. Ela presume um sentimento de dependência dos juízos individuais em relação ao entendimento humano universal, formando uma unidade racional. Kant não se atém à unidade racional, porque ele prioriza a consciência do sentimento de dependência da vontade individual à universal. </p>
            <p>Logo, Kant não se centra em uma via que poderia levá-lo à consideração do “eu transcendental”, abandona-a, fazendo um apelo ao sentimento como elemento decisivo na vida moral. Este, representando uma força maior do que a força egoística, movendo os homens conforme o interesse geral, surgindo daí as tendências morais. Por este motivo, o homem depende da regra da vontade geral, despontando, então, uma unidade moral, regida segundo leis puramente espirituais.</p>
            <p>Kant denomina sentimento moral a necessidade de ajustar o querer individual à vontade geral. Ele o considera como fenômeno, como algo empiricamente dado, deixando de lado a questão de determinar a sua essência às suas cau&not;sas. Kant compara a situação do sentimento moral ao da gravitação universal na mecânica newtoniana. Do mesmo modo que Newton obtém a certeza das regras universais que regem os fenômenos materiais, pode-se ter uma consciência imediata, uma determinação universal moral da qual, embora não sabendo da sua essência, seja possível derivar muitas coisas concretas.</p>
            <p>Desta feita, a ética kantiana não deixa o homem vaguear entre sonhadas perfeições morais, como uma pretensa aquisição da boa vontade, limitando o alcance das ações humanas simplesmente ao espaço da virtude.</p>
            <p>Como teria afirmado <xref ref-type="bibr" rid="B07">Paton (1971)</xref>, o próprio Kant duvidava de que ele pudesse ter uma vontade determinada exclusivamente por motivos racionais: “O que ele duvida é da presença real de uma tal vontade santa em si próprio e em seus contemporâneos [&#x2026;]”, Kant estava preocupado em mostrar a debilidade do julgamento moral dos alemães: “Era certamente um aviso muito necessário de encontro a algumas das fraquezas do temperamento alemão, embora tais fraquezas não estejam restritas de nenhuma maneira aos alemães” (<xref ref-type="bibr" rid="B07">Paton, 1971</xref>, p. 52, tradução nossa).</p>
            <p>No entanto, na vida humana não se encontra a moralidade plena. Ela reside no mundo dos espíritos. A moralidade da ação tem o seu completo efeito, quando ocorre a ligação total com o mundo dos espíritos. No momento em que se sucede o desligamento com o mundo corpóreo, vê-se o acordo perfeito ou não da vontade individual com a vontade universal, dando-se, assim, os reais efeitos da moralidade. Portanto, a alma, quando desligada do corpo, se uniria aos espíritos e sofreria os efeitos daquilo que foi praticado no mundo.</p>
            <p>Kant parece ter se livrado de todos os pré-juízos (<xref ref-type="bibr" rid="B01">Campo, 1953</xref>). Em decorrência, extinguiu tudo o que poderia gerar saberes imaginários. Ele diz que não se tem como afirmar nem negar a existência dos espíritos. Todos os argumentos que são colocados a favor têm argumentos contrários de igual peso. Por esse motivo, a razão só pode constatar o problema, mas ela está impossibilitada de resolvê-lo.</p>
            <p>Kant afirma não ter uma posição definida frente às histórias das aparições dos espíritos. Contudo, quanto ao tema “esperança no futuro”, ele diz que é a única inexatitude que não pode e não quer suprimir (<xref ref-type="bibr" rid="B05">Kant, 1987</xref>). Todas as hipóteses sobre espíritos só têm algum valor porque a elas subjazem esta esperança. Sem isto, elas são especulações vazias.</p>
            <p>Kant afirma nada saber quanto à possibilidade de um espírito estar presente em um corpo, assegura que não compreende como isto ocorre. Em decorrência, se resigna a assumir sua ignorância frente ao assunto da vida pós-morte. Ele afirma ainda não ter como negar as histórias sobre os espíritos, porém, isto não impede que ele duvide delas. Quanto à doutrina filosófica dos seres espirituais, Kant diz que só se pode conhecer os fenômenos da natureza e suas leis e, por este motivo, a natureza espiritual só se pode supor, nunca conhecer, por não se encontrar dados para resolver esta questão em nenhuma experiência vivida.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>A metafísica</title>
            <p>A metafísica pré-crítica de Kant deve ser vista sob alguns importantes pontos, a saber: primeiro, a observação da visão europeia, essencialmente a alemã; segundo a análise feita por Kant tanto sobre o ceticismo de Hume (<xref ref-type="bibr" rid="B09">Schönfeld, 2000</xref>) quanto o dogmatismo de Wolff, além da síntese de ambos; e terceiro, o problema existente no conceito de metafísica “empiristas, dogmáticos, céticos” o qual o próprio Kant vivenciou.</p>
            <p>No pensamento de Kant é possível perceber que a distinção digna da metafísica constitui a forma em que ela é subscrita, ou seja, como categoria de possibilidade de se situar como uma ciência constituída por conceitos puros.</p>
            <p>Uma ciência que inclua em si os conhecimentos que podem ser adquiridos de forma estranha à experiência, isso com base nos arcabouços racionais da mente humana. Por isso, sua metafísica se apresenta como uma possibilidade de ciência racional desde sua concepção, constituindo-se como uma “disposição natural da razão” humana.</p>
            <p>Entretanto, no segundo capítulo da parte histórica, Kant explicita sua verdadeira intenção em relação a todo escrito anterior (<xref ref-type="bibr" rid="B05">Kant, 1987</xref>). A metafísica, diz agora Kant, tem dois tipos de vantagens. A primeira consiste em auxiliar o espírito para que ele possa descobrir, através de um processo racional, as propriedades ocultas das coisas.</p>
            <p>Entretanto, neste aspecto, a metafísica decepciona. A outra vantagem consiste em questionar se aquilo que se permite propor é proporcional ao que se pode saber, e se isto que está sendo proposto tem relação com os conceitos da experiência, nos quais, em última instância, se devem apoiar todos os juízos. Encarada desta forma, a metafísica é definida co&not;mo uma ciência dos limites da razão humana. Kant ainda não tem determinado estes limites com precisão, mas não duvida que o conhecimento tenha que buscar seus dados no mundo sensível.</p>
            <p>Nesse contexto, Kant experimenta durante todo esse processo e tem seu auge filosófico na <italic>Crítica da Razão Pura</italic> a tentativa de “sair do pensamento metafísico da mera ideia da coisa substancialmente metafísica e colocá-la no centro do conhecimento como objeto da experiência” (<xref ref-type="bibr" rid="B04">Holzhey; Mudroch, 2005</xref>, p. 197).</p>
            <p>Nas relações fundamentais, como, por exemplo, as de causa e efeito, a filosofia chega ao seu limite, não sendo possível à razão conhecê-las. Elas só podem ser tomadas da experiência. A razão só alcança as coisas que se pode comparar segundo a identidade e a contradição. Se os conceitos das relações fundamentais não forem extraídos da experiência, tornam-se arbitrários, não podendo ser nem refutados, nem demonstrados. Por este motivo não há possibilidade de afirmar que a alma, quando separada do corpo, pode pensar, porque isto é algo impossível de ser conhecida pela experiência.</p>
            <p>Vale salientar que, a metafísica kantiana teria como objetivo a tentativa de busca por certos ideais da razão, dessa forma, princípios “regidos por leis a priori”. Por sua vez, a possibilidade da metafísica como ciência depende então da possibilidade do conhecimento a priori por meio da razão pura como defendem <xref ref-type="bibr" rid="B08">Porta (2002)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B03">Höffe (2009)</xref>.</p>
            <p>Dessa forma, as teorias metafísicas tradicionais, como a wolffiana, só podem ser concebidas como ficções filosóficas. Em uma carta a Mendelssohn, de 8 de abril de 1766, Kant estabelece uma analogia entre Swedenborg e os metafísicos (<xref ref-type="bibr" rid="B05">Kant, 1987</xref>). Assim, as loucuras de um visionário são comparadas aos desvarios da razão. Ao passo que “os sonhadores da sensação”, ou seja, aqueles que dizem ouvir e ver os espíritos não podem evitar cair no erro, porque são enfermos e transportam as coisas da imaginação para os sentidos externos; “os sonhadores da razão”, como são chamados os metafísicos, poderiam ter evitado cair no erro de transformar o conhecimento em ficções ou hipóteses se tivessem usado corretamente o entendimento.</p>
            <p>No segundo capítulo da parte I dos <italic>Sonhos de um Visionário Explicados pelos Sonhos da Metafísica</italic>, Kant mostra que se pode construir, a partir das hipóteses de um visionário, um sistema filosófico com uma certa conexão racional de conceitos e princípios. Porém, a silogística e um fundamento real não bastam para eximir um pensador de absurdos e contradições.</p>
            <p>Embora sejam diferentes em gênese e em grau, os visionários e os metafísicos, as ilusões de Swedenborg e as filosofias de Wolff ou Crusius têm um certo parentesco. Eles estão no mesmo patamar, porque trabalham os problemas imprecisamente formulados e ficam voltados para coisas incompreensíveis, baseados em conceitos equivocados. Tanto uns quanto os outros encontram-se em um mesmo nível: nenhum atende ao saber científico e encaminham-se através de ilusões. Das afirmações de Swedenborg, bem como as dos metafísicos, não se pode tirar nenhum proveito. Ambas são vazias.</p>
            <p>Kant, dessa maneira, faz um apelo à experiência, colocando-a como demarcadora do conhecimento. A pergunta para saber se este ou aquele problema é suscetível de um conhecimento científico, será a de quais são os dados que se tem para solucionar os mesmos. O que não se pode confirmar com a experiência é algo que não é dado por conhecer.</p>
            <p>Filósofos e visionários prescindem da experiência. Sendo assim, as ilusões metafísicas e as fantasmagorias dos visionários são iguais. Diante das obras dos metafísicos e os <italic>Arcana Caelestia</italic>, só se pode ter uma conclusão negativa: a consciência de não saber nada sobre os temas que são transcendentes à experiência.</p>
            <p>Com isto, Kant mostra que a razão, embora em si ilimitada, está materialmente limitada pelos dados da experiência. Por este motivo, são sonhadores da razão os filósofos que constroem, no “ar”, diferentes mundos ideais. Eles são considerados como sonhadores despertos, porque mesmo quando estão em vigília, prestam pouca atenção às sensações e dão mais importância às ficções e quimeras geradas por sua imaginação.</p>
            <p>Logo, a atitude que se deve adotar frente a eles é a de ter-se paciência em relação às contradições de suas visões, até que deixem de sonhar e passem a habitar um mundo intersubjetivamente válido.</p>
            <p>Nota-se, então, que Kant é severo em suas análises relativas aos sonhado&not;res da razão ou sonhadores despertos. Ele critica a metafísica racionalista, afirmando que seus conceitos são híbridos imaginários-racionais e têm a preten&not;são de suprir a falta de uma adequada base experimental.</p>
            <p>Os sonhadores da sensação, por sua vez, são diferentes dos da razão. Os sonhadores da sensação são aqueles que vêem algo que nenhum outro homem vê. Por exemplo, na medida em que tratam de imagens criadas, as quais enganam os sentidos como se as aparições fossem autênticas, eles são chamados por Kant de “visionários”, porque através da imaginação, transportam o sonho para a realidade dos sentidos externos.</p>
            <p>Kant diferencia dois tipos de representação: as espirituais e aquelas que estão ligadas ao sensível. Sendo a mesma substância que participa do mundo espiritual e sensível, as representações de cada um destes mundos encontram-se formando uma unidade em um só sujeito. Kant indica como é possível uma relação do mundo espiritual com o mundo material, ou seja, qual a maneira que o homem toma consciência do mundo espiritual, mesmo nesta vida.</p>
            <p>Como isto não pode acontecer de forma imediata, só pode se dar a partir da consciência simbólica. As representações se sucedem pelo fato de que o influxo espiritual não ocorre de forma imediata. Ele se manifesta à consciência por meio de imagens. Estas são semelhantes à fantasia e tomam a aparência de sensações. É por este motivo que os espíritos são representados sob a ¬forma de uma figura humana.</p>
            <p>As fantasias da imaginação com o influxo espiritual misturam-se de tal forma que se torna impossível diferenciar entre o que há de verdade e as fantasmagorias que rodeiam tal influência. Ofuscação e verdade se mesclam. Quando alguém se encontra em tal estado, isto indica a existência de uma enfermidade. Kant chama a atenção para o fato de que esta classe de aparições não é algo corrente, só podendo acontecer com algumas pessoas cujos órgãos tenham uma excitabilidade pouco comum.</p>
            <p>A alma, quando está representando algo, transfere o objeto sentido ao ponto onde entrecruzam as diversas linhas direcionais da impressão que é produzida por este objeto. Para explicar isto, Kant afirma que as representações da faculdade da imaginação vão acompanhadas por certos movimentos do tecido nervoso central, chamados de ideias materiais. Trata-se de uma vibração provocada pela impressão da qual é cópia. A diferença entre os movimentos dos nervos na fantasia e o movimento dos nervos na sensação é que faz com que as linhas direcionais do movimento da fantasia cortem-se dentro do cérebro e as linhas direcionais do movimento na sensação, cortem-se fora dele. Por este motivo, não pode haver equívoco ao diferenciar a impressão dos sentidos das impressões da imaginação.</p>
            <p>O que caracteriza a alucinação e a loucura é o fato de que o homem que as possui projeta para fora de si os objetos da imaginação e os considera como presentes diante dele. Os conceitos adquiridos por educação sobre fantasmas proporcionam a estes homens muitos materiais para as suas ilusões. Este tipo de enfermidade produz a ilusão dos sentidos, vindo esta antes do entendimento.</p>
            <p>Fornecer uma explicação racional sobre fantasmas e influência dos espíritos é algo embaraçoso. As almas, quando estão separadas dos corpos e os espíritos puros, não podem se apresentar frente aos nossos sentidos nem se comunicarem com a matéria. Mas os espíritos podem atuar uns sobre os outros. Neste caso, quando eles atuam no espírito humano, as representações despertadas nele podem ser encobertas por fantasia, fazendo-o acreditar que sejam objetos que residem fora do espírito. Não se pode deixar de supor que mesmo as mais díspares das ilusões podem ter alguma influência espiritual. Kant chama a atenção para o fato de que, devido à flexibilidade das hipóteses metafísicas, poder-se-ia acomodar a suposição da influência dos espíritos às histórias de suas aparições, mesmo antes de investigar-se sua veracidade.</p>
            <p>Kant adverte fortemente em relação a esta tentação, chamando ao bom senso e ao espírito crítico, afirmando que, se entrar no conhecimento intuitivo do mundo dos espíritos, sacrificar-se-á o conhecimento do mundo material. Por este motivo, Kant prefere não ceder à tentação de aventurar-se no mundo dos espíritos, limitando-se ao conhecimento da realidade corpórea.</p>
            <p>Em suma, poder-se-ia aqui pensar que, quando Kant criticasse a metafísica, ele estaria sendo um empirista. Convém lembrar que Kant jamais o teria sido, porque ele<bold><xref ref-type="fn" rid="fn03">3</xref></bold>:</p>
            <list list-type="order">
                <list-item>
                    <p>Nos <italic>Sonhos de um visionário explicados pelos sonhos da metafísica</italic> jamais criticou determinados conteúdos metafísicos, como por exemplo, a categoria de substância;</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>Adota teses metafísicas, como por exemplo, a concepção monológica da matéria;</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>Em uma carta a Mendelssohn, datada de 8 de abril de 1766, afirma que não foi seu propósito questionar o valor da metafísica, e sim, sem dúvida, colocá-la sob novas bases;</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>Nos <italic>Sonhos de um visionário explicados pelos sonhos da metafísica</italic>, faz um apelo à experiência, no sentido de que, para certos problemas, não só faltam os dados da experiência, como, também, ela nunca poderia proporcionar tais dados, sendo assim um equívoco buscá-los nela;</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>Mesmo tendo alcançado uma claridade em relação ao princípio causal, sem dúvida alguma, por causa da influência de Hume, isto não foi a causa do seu procedimento agnóstico frente ao comércio psicofísico.</p>
                </list-item>
            </list>
        </sec>
        <sec>
            <title>Metafísica e explicações patológicas</title>
            <p>No terceiro capítulo da parte I dos <italic>Sonhos de um Visionário Explicados pelos Sonhos da Metafísica</italic>, Kant faz uma crítica tanto à sua hipótese do capítulo anterior sobre o mundo dos espíritos, quanto a Wolff, Crusius e aos visionários, em particularmente Swedenborg. Kant relaciona as afirmações da metafísica às de Swedenborg, dando uma explicação patológica às últimas e colocando como ficções as primeiras.</p>
            <p>A personalidade de Swedenborg é fundamental para melhor desconstruir e reconstruir a possibilidade de distinguir o mundo que transcende o conhecimento sensível. Ele, em suas indagações sobre o mundo supra-sensível, procura penetrar junto aos seres que antigamente habitavam na terra, e agora, se encontram no mundo espiritual e permanecem dialogando e permitindo que haja trocas de ideias com seres mundanos, ao menos com aqueles que conseguem tal troca. Importa salientar um fato em que Swedenborg confirma seu “carisma”, transpondo o mundo sensível e atingindo o mundo supra-sensível.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>Os sonhadores da razão e os sonhadores das sensação</title>
            <p>A questão central dessa reflexão reside neste processo de troca de informações entre o sujeito e o mundo dos espíritos. <xref ref-type="bibr" rid="B06">Kant (1967)</xref> nos <italic>Sonhos de um Visionário</italic>, faz-se valer da conceptualização clássica de espírito: um ser imaterial, simples, dotado de razão e que pode ocupar um ser material sem lhe causar a força da impenetrabilidade.</p>
            <p>Trata-se de procurar compreender que Kant debate sobre o conceito de espírito tendo como alicerce uma crítica ao racionalismo que define o conceito de espírito sem, ao menos, demonstrar ou evidenciar a sua existência.</p>
            <p>Como já se disse anteriormente, Kant distingue dois tipos de sonhadores: os dos sentidos e os da razão. A história sobre os espíritos, suas aparições e a sua imortalidade, forneceram a base sob a qual os filósofos desenvolveram a ideia racional de espírito.</p>
            <p>O próprio Kant afirma que a sua hipótese de como os espíritos se relacionam após a separação do corpo, deveu-se ao fato dele tentar dar uma explicação racional ao tema. Porém, Kant não sabe como uma natureza imaterial pode encontrar-se relacionada a um corpo.</p>
            <p>Ele não nega as histórias sobre os espíritos, mas as põe em dúvida. Adota, então, uma atitude agnóstica afirmando que no futuro talvez se possa chegar a opinar de forma distinta, mas nunca se poderá saber mais a respeito. Kant afirma que só se pode ter um entendimento negativo sobre tal tema. Só podemos conhecer fenômenos naturais, mas nunca a natureza espiritual. Para esta faltam-lhe os dados em nossas sensações. Tem-se somente a capacidade de supô-la, mas não de conhecê-la. A possibilidade de um entendimento positivo, em relação à natureza espiritual, não se baseia em experiências nem em raciocínios. Esta tem como base a ficção. Com isto, Kant aponta os limites do conhecimento, em particular da razão humana. Como defende o próprio Kant <italic>apud</italic>
                <xref ref-type="bibr" rid="B10">Trobridge (1998)</xref>:</p>
            <p><disp-quote>
                    <p>Só podereis manter, portanto, o conceito de um espírito, se pensardes em seres que poderiam estar presentes mesmo em um espaço cheio de matéria, portanto seres que não possuem em si a propriedade da impenetrabilidade e que nunca constituiriam um todo sólido, estejam reunidos no número que quiser. Seres simples desta espécie serão chamados seres imateriais e, se possuírem razão, espíritos.</p>
                </disp-quote></p>
            <p>Pelo contrário, Kant <italic>apud</italic>
                <xref ref-type="bibr" rid="B10">Trobridge (1998)</xref> permanece defendendo a tese de que: “Mas substâncias simples, cuja composição resulta em um todo impenetrável e extenso, serão chamadas unidades materiais, e seu todo, matéria. Ou o nome de um espírito é uma palavra sem qualquer sentido ou seu significado é o indicado”</p>
            <p>Logo, o que se supõe saber sobre a natureza espiritual, não passa de ficções e hipóteses. A conclusão agnóstica de Kant é estendida à metafísica, incluindo aquela que presume aplicar às coisas transcendentes o método das ciências naturais.</p>
            <p>Kant, na conclusão da parte I dos <italic>Sonhos de um Visionário Explicados pelos Sonhos da Metafísica</italic>, afirma que se tem de restringir os projetos conforme as forças e limitar-se ao que é dado a alcançar quando não se pode transcender. O conhecimento do supra-sensível não é dado. Não é possível alcançá-lo nem com base em silogismos e nem com base na percepção. A crença na existência dos espíritos não se fundamenta em motivos cognitivos. Ela baseia-se no fato de que se tem uma expectativa em relação à imortalidade.</p>
        </sec>
        <sec sec-type="conclusions">
            <title>Considerações Finais</title>
            <p>Nos <italic>Sonhos de um Visionário Explicados pelos Sonhos da Metafísica</italic>, Kant faz críticas à especulação em nome da experiência e critica o conhecimento científico em nome da moral. Ele afirma que a causa, o efeito e a substância são relações fundamentais que não se podem captar nem intuir. Não é dada à razão capacidade para conhecer tais relações fundamentais. Elas só podem ser advindas da experiência.</p>
            <p>Kant mostra esta análise pormenorizada na “conclusão teórica” dos Sonhos de um visionário explicados pelos sonhos da metafísica. Na “conclusão prática”, ele enfatiza a moral. Ela não pode vir fundada tomando como base doutrinas metafísicas, e sim, deve ser construída, tendo como estrutura, o coração. Ele fornece as normas ao intelecto. Nota-se aqui que é clara a influência de Rousseau em Kant, quando este afirma que na moralidade as regras não são especulativas. Elas são a consciência de um sentimento. Onde este reside na natureza humana. Há, então, uma enfatização do sentimento na vida moral.</p>
            <p>Kant não perde a fé na metafísica, atribuindo-a um grande significado como ciência dos limites da razão humana. A crítica kantiana em 1766 não é de natureza teórica.</p>
            <p>Kant, nesta época, afirma a indemonstrabilidade da existência da natureza espiritual, colocando que toda tentativa em relação a isto se resulta em <italic>fictio heurística</italic> ou <italic>hypotesis</italic>, na qual não temos um critério objetivo de conhecimento.</p>
            <p>Porém, Kant reconhece que apesar de ter-se a certeza da impossibilidade teórica em relação aos problemas suscitados pela psicologia racional, quanto às questões práticas, ele não as põe em dúvida. A moralidade tem aqui sua decisiva fundamentação. O conhecimento da natureza espiritual não é necessário para convencer da sobrevivência após a morte nem para conduzir à virtude. O bem não deriva disto. A norma moral encontra-se imediatamente presente à consciência e ela não se funda sob a esperança de um prêmio ou de um castigo que poderá acontecer em um estado pós-morte.</p>
            <p>Quanto mais Kant alcança a certeza na filosofia prática, mais incerteza ele tem em relação à filosofia especulativa. A metafísica teórica é dispensável como fundamento da moral. Sendo assim, a filosofia é o conhecimento prático do homem. Kant, então, fundamenta a metafísica sob uma nova base, que é a da moralidade.</p>
            <p>Sumarizando, podemos considerar que Kant procurou estabelecer dentro da sua proposta, uma metafísica que pudesse ser vista pelo campo racional como uma possibilidade de que sejam conhecidas as coisas e, principalmente, sem nenhuma intervenção supra-sensível.</p>
        </sec>
    </body>
    <back>
        <fn-group>
            <title>Como citar este artigo/<italic>How to cite this article</italic></title>
            <fn fn-type="other">
                <p>Gondim, E.; Chingore, T. T.; Pereira, M. G. M. R. Kant: os sonhos de um visionário e o mundo dos espíritos. <italic>Reflexão</italic>, v. 48, e238497, 2023. <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://doi.org/10.24220/2447-6803v48a2023a8497">https://doi.org/10.24220/2447-6803v48a2023a8497</ext-link></p>
            </fn>
        </fn-group>
        <fn-group>
            <fn fn-type="other" id="fn03">
                <label>3</label>
                <p>Ver <xref ref-type="bibr" rid="B02">Gonzaléz (2002)</xref>.</p>
            </fn>
        </fn-group>
        <ref-list>
            <title>Referências</title>
            <ref id="B01">

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                    <comment>Didática de aprendizagem e metodologia do estudo filosófico</comment>
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