Nas águas do tempo
traumas coletivos na transposição do rio São Francisco
Palavras-chave:
População rural, Práticas interdisciplinares, Violação de direitos humanosResumo
Este artigo tem como objetivo compartilhar a experiência do Programa de Extensão Universitária transVERgente, da Universidade de Pernambuco, que, por meio de uma equipe multiprofissional e interdisciplinar, acompanha comunidades camponesas atravessadas por traumas coletivos decorrentes da implementação do megaempreendimento da transposição do rio São Francisco. A metodologia utilizada trata-se de relatos de experiências a partir de pesquisas extensionistas realizadas no sertão do estado, tecendo uma leitura fenomenológica contracolonial por meio de uma cartografia inspirada na Educação Popular. O texto destaca como resultados a denúncia apresentada ao Ministério Público Federal como caminho para possíveis reparações dos traumas coletivos advindos da invasão da transposição do rio São Francisco nas ruralidades, bem como denuncia que a falta de água, o rompimento do laço com a terra e com os modos coletivos de existir afetam a saúde mental dos moradores das comunidades acompanhadas, produzindo um sofrimento que não se restringe ao desalojamento físico, mas alcança as memórias, os afetos e a confiança nas relações. Na reflexão sobre o trauma psicossocial coletivo e seus desdobramentos, destaca-se que é preciso enxergar os traumas para além da lógica temporal do direito. É chegada a hora de os tribunais superiores se voltarem para os impactos à saúde integral das comunidades afetadas por megaempreendimentos e interpretá-los como danos socioambientais imprescritíveis, tendo em vista que a linha do tempo dos traumas coletivos nem sempre coincide com a de um calendário prescricional.
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