Nas águas do tempo

traumas coletivos na transposição do rio São Francisco

Autores

  • Suely Emilia de Barros Santos Universidade de Pernambuco, Programa de Pós-Graduação em Psicologia Práticas e Inovação em Saúde Mental, Programa de Pós-Graduação em Saúde e Desenvolvimento Socioambiental https://orcid.org/0000-0001-6249-7487
  • Clarissa Marques Universidade de Pernambuco, Programa de Pós-Graduação em Saúde e Desenvolvimento Socioambiental. https://orcid.org/0000-0003-2567-141X
  • Giselle Oliveira Santos Universidade de Pernambuco, Programa de Pós-Graduação em Psicologia Práticas e Inovação em Saúde Mental, Programa de Pós-Graduação em Saúde e Desenvolvimento Socioambiental, Laboratório em Ações Coletivas e Saúde. Garanhuns https://orcid.org/0000-0003-3823-1835
  • Mariada Conceição Florencio Monteiro Bezerra Universidade de Pernambuco, Programa de Pós-Graduação em Psicologia Práticas e Inovação em Saúde Mental. https://orcid.org/0009-0001-1592-8587
  • Renata Pereira Farias Universidade de Pernambuco, Programa de Pós-Graduação em Psicologia Práticas e Inovação em Saúde Mental. https://orcid.org/0000-0002-4297-7421

Palavras-chave:

População rural, Práticas interdisciplinares, Violação de direitos humanos

Resumo

Este artigo tem como objetivo compartilhar a experiência do Programa de Extensão Universitária transVERgente, da Universidade de Pernambuco, que, por meio de uma equipe multiprofissional e interdisciplinar, acompanha comunidades camponesas atravessadas por traumas coletivos decorrentes da implementação do megaempreendimento da transposição do rio São Francisco. A metodologia utilizada trata-se de relatos de experiências a partir de pesquisas extensionistas realizadas no sertão do estado, tecendo uma leitura fenomenológica contracolonial por meio de uma cartografia inspirada na Educação Popular. O texto destaca como resultados a denúncia apresentada ao Ministério Público Federal como caminho para possíveis reparações dos traumas coletivos advindos da invasão da transposição do rio São Francisco nas ruralidades, bem como denuncia que a falta de água, o rompimento do laço com a terra e com os modos coletivos de existir afetam a saúde mental dos moradores das comunidades acompanhadas, produzindo um sofrimento que não se restringe ao desalojamento físico, mas alcança as memórias, os afetos e a confiança nas relações. Na reflexão sobre o trauma psicossocial  coletivo e seus desdobramentos, destaca-se que é preciso enxergar os traumas para além da lógica temporal do direito. É chegada a hora de os tribunais superiores se voltarem para os impactos à saúde integral das comunidades afetadas por megaempreendimentos e interpretá-los como danos socioambientais imprescritíveis, tendo em vista que a linha do tempo dos traumas coletivos nem sempre coincide com a de um calendário prescricional.

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Publicado

2025-12-16

Como Citar

Santos, S. E. de B., Marques, C., Oliveira Santos, G., Bezerra, M. C. F. M., & Pereira Farias, R. (2025). Nas águas do tempo: traumas coletivos na transposição do rio São Francisco. Estudos De Psicologia (Campinas), 42. Recuperado de https://puccampinas.emnuvens.com.br/estpsi/article/view/15340

Edição

Seção

DOSSIÊ PSICOLOGIA, PERÍCIA PSICOSSOCIAL E DIREITOS HUMANOS COLETIVOS